Neste número:

  1. Os nautilóides e demais cefalópodos
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Ano 2

Número 17

Maio 2000

Cymatoceras striaticostatum? (Crick, 1907) - um nautilóide do Cenomaniano (cerca de 91 milhões de anos) da bacia de Sergipe-Alagoas (acervo da Univ. Heidelberg). Os fósseis da bacia de Sergipe-Alagoas

Os nautilóides e demais cefalópodos

Os nautilóides e demais cefalópodos

Wagner Souza-Lima* & Peter Bengtson#

* Fundação Paleontológica Phoenix, Aracaju, Sergipe, Brasil (e-mail: wagnerl@hotmail.com)

# Universität Heidelberg, Geologisch-Paläontologisches Institut, Alemanha (e-mail: Peter.Bengtson@urz.uni-heidelberg.de)

Entre os moluscos cefalópodos, apenas os amonóides, nautilóides e coleóides ocorrem em rochas pós-paleozóicas. Os amonóides constituem o grupo mais numeroso, embora no Brasil sejam restritos ao Cretáceo. Os demais cefalópodos são muito raros na bacia de Sergipe. Na verdade, alguns grupos de grande importância bioestratigráfica, comuns em rochas do Jurássico e Cretáceo da Europa e América do Norte, como os coleóides belemnitas, estão ausentes na bacia de Sergipe e em outras bacias brasileiras.

Os nautilóides, embora pouco freqüentes, são também encontrados em Sergipe. Com uma exceção, os exemplares conhecidos são restritos a um único horizonte estratigráfico, o Cenomaniano inferior da área de Itaporanga, no sul do estado. Um exemplar, todavia, provém das camadas do limite entre o Cenomaniano e o Turoniano, expostas na área de Rita Cacete, ao sudeste de Itaporanga. A raridade dos nautilóides fósseis não é exclusiva da bacia de Sergipe; admite-se que os nautilóides foram, durante toda a sua evolução, componentes subordinados da fauna1. São muito raras as acumulações de suas conchas, ao contrário do que se observa com os amonóides. Algumas ocorrências são, contudo, clássicas: as do Ordoviciano médio da Noruega, Suécia e Estônia; Ordoviciano de Iowa e Permiano inferior do Texas, Estados Unidos.

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Figura 1 – Seção longitudinal de um nautilóide recente (Nautilus Linné, 1758) 1.

Originados no final do Cambriano, há cerca de 520 milhões de anos, os nautilóides provavelmente deram origem aos amonóides no Devoniano, embora sejam desconhecidas formas intermediárias entre os dois grupos. Os nautilóides são semelhantes aos amonóides, apresentando uma concha externa, com padrão de enrolamento, ornamentação e geometria bastante parecidos (Figura 1). Distinguem-se dos amonóides principalmente por apresentarem linhas de sutura muito simples. Entretanto outras feições auxiliam na sua diag-nose: o sifúnculo apresenta uma posição variável (central a marginal) e a concha, embora dividida por septos, possui câmaras em parte preenchidas por depósitos de carbonato de cálcio de origem orgânica.

Poucos são os trabalhos que fazem referência aos nautilóides da bacia de Sergipe e apenas um abrange sua classificação sistemática2. Dois gêneros são reconhecidos na bacia: Cymatoceras Hyatt, 1884 e Eutrephoceras Hyatt, 1894 (Figura 2a). Estes gêneros foram entre os mais abundantes e de maior distribuição geográfica durante o Cretáceo, tendo sido extintos no Oligoceno e no Mioceno, respectivamente1. É possível que Eutrephoceras seja ancestral do único gênero de nautilóide ainda existente, Nautilus Linné, 1758.

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Figura 2 – a) Eutrephoceras justum? (Blanford, 1861), do Cenomaniano da área de Itaporanga (coleção da Universität Heidelberg); b) rincólito de nautilóide do Paleoceno da bacia de Pernambuco-Paraíba (coleção Phoenix).

Embora sejam muito raras, outras partes dos cefalópodos também podem ser preservadas nas rochas. É o caso dos rincólitos, que provavelmente são porções da mandíbula destes organismos. Na bacia de Sergipe ainda não foram identificados tais elementos, mas eles ocorrem em rochas do Terciário inferior (Paleoceno) de Pernambuco, possivelmente derivados de nautilóides do gênero Cimomia que lá ocorrem (Figura 2b). Outro elemento são os "aptychi", placas constituintes da mandíbula inferior, restritos aos amonóides. Estes ainda não foram encontrados no Brasil.

Quase todos os coleóides possuem uma concha interna. Das três ordens que existiram no Cretáceo - Teuthida, Sepiida e Belemnitida3 - apenas as duas primeiras chegaram até o Recente. A concha dos Teuthida é muito reduzida, aberta, sem septos ou sifúnculo, calcificada ou composta por conchiolina, uma substância orgânica. Por ser relativamente frágil, é de muito difícil preservação, e até o presente momento não foi identificada na bacia de Sergipe. A maioria dos Sepiida possui uma concha cônica bem calcificada. Em algumas formas modernas, como os polvos e argonautas, a concha é ausente. Um provável representante dos Sepiida, ainda não descrito, foi encontrado em sedimentos do Cretáceo inferior (Albiano) da bacia de Sergipe.

Dos coleóides, o grupo mais importante do ponto de vista bioestratigráfico é o dos belemnitas. Apesar de terem tido uma distribuição geográfica muito ampla durante o Jurássico e Cretáceo, foram muito mais comuns e diversificados no hemisfério norte que nas outras partes do mundo3,4. De qualquer modo é notável sua falta nas rochas cretáceas da bacia de Sergipe e de outras bacias brasileiras, embora existam registros a latitudes mais altas no hemisfério sul (p. ex., em Madagáscar, na Argentina, e na Antártida4). É possível que esta ausência possa ser explicada por fatores climáticos e paleoecológicos, que tornaram as condições locais, no estreito golfo do Atlântico Sul nascente, desfavoráveis ao desenvolvimento destes organismos.

1Teichert, C.; Kummel, B.; Sweet, W. C.; Stenzel, H. B.; Furnish, W. M.; Glenister, B.; Erben, H. K.; Moore, R. C. & Zeller, D. E. N. 1964. Cephalopoda-General Features-Endoceratoidea-Actinoceratoi-dea-Nautiloidea-Bactritoidea. In R. C. Moore (Ed.): Treatise on Invertebrate Paleontology, Part K, Mollusca 3. Geological Society of America, University of Kansas, pp. K1-K519.

2Samuelsson, J. 1992. Cretaceous nautiloids from the Sergipe Basin, Brazil. Paleontologiska institutionen, Uppsala Universitet, Relatório não publicado, pp. 1-41.

3Jeletzky, J. A. 1966. Comparative morphology, phylogeny, and classification of fossil Coleoidea. The University of Kansas Paleontological Contributions, Mollusca, Article 7, pp. 1-162.

4Doyle, P. 1992. A review of the biogeography of Cretaceous belemnites. In B. A. Malmgren & P. Bengtson (Eds.): Biogeographic patterns in the Cretaceous ocean. Palaeogeography, Palaeoclimatology, Palaeoecology, 92(3/4): 207-216.

 

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