Neste número:

  1. Os moluscos bivalves
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Ano 2

Número 18

Junho 2000

Nevenulora? sp. - um bivalve do final do Campaniano (cerca de 75 milhões de anos) da bacia de Sergipe (acervo Phoenix). Os fósseis da bacia de Sergipe-Alagoas

Os moluscos bivalves

Os moluscos bivalves

Edilma de Jesus Andrade* & Jens Seeling#

* Univ. Federal de Sergipe/Fundação Paleontológica Phoenix, Aracaju, Sergipe, Brasil (e-mail: edilmaandrade@hotmail.com)

# Universität Heidelberg, Geologisch-Paläontologisches Institut, Alemanha (e-mail: Jens.Seeling@urz.uni-heidelberg.de)

Qualquer pessoa ao andar pela praia encontra com certa facilidade conchas de mariscos na areia. Algo semelhante acontece se visitarmos uma das muitas pedreiras de calcário no interior de Sergipe, onde "pisaremos" sobre uma grande quantidade de fósseis desses animais. Eles viveram e morreram há milhões de anos sobre o fundo do recém-aberto Atlântico Sul e hoje nós achamos os restos animais petrificados em camadas depositadas naquele período.

A Classe Bivalvia Linné, 1758, também conhecida como Pelecypoda ou Lamellibranchia, caracteriza-se por moluscos que possuem uma concha com duas valvas articuladas, incluindo formas populares como ostras e mexilhões. Na identificação dos bivalves são utilizados alguns caracteres tais como morfologia e microestrutura da concha, tipo de charneira, cicatrizes musculares, presença ou ausência de sinus palial e a morfologia das brânquias. Nos fósseis somente as conchas ou suas marcas são preservadas, e consequentemente, os paleontólogos dispõem, apenas desses características para seus estudos (Figura 1). Já os biólogos que estudam espécies recentes podem também analisar a parte mole desses animais.

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Figura 1 - Principais caracteres morfológicos dos moluscos bivalves.

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Os bivalves já habitam a Terra desde o início do período Cambriano (Figura 2), há mais de 500 milhões de anos, alcançando maior auge na era Mesozóica. Desde então eles ganharam cada vez mais importância e tornaram-se, a partir do Cretáceo, um dos mais importantes elementos da fauna marinha. No Terciário passaram a ser o grupo dominante de invertebrados de concha dura, ao contrário dos braquiópodos, grupo de invertebrados que também tem duas valvas. Atualmente existem mais de 20.000 espécies de bivalves e quase o mesmo número de formas extintas.

Figura 2 - Diversidade dos moluscos bivalves desde sua origem.

 

De modo geral os bivalves apresentam uma ampla distribuição vertical ou estratigráfica (geocronológica) e por isso não são considerados bons fósseis-guia. Uma exceção ocorre com o grupo dos bivalves inoceramídeos, que são valiosos na bioestratigrafia do período Cretáceo por apresentarem uma rápida evolução e ampla distribuição geográfica. Devido à sua importância, esse grupo será tratado separadamente no próximo número.

A maioria dos moluscos bivalves são marinhos. Alguns gêneros são encontrados em ambientes de água doce. A evolução da alimentação por filtração levou esse grupo a colonizar e se adaptar aos diversos hábitats e modos de vida: cavadores de fundo mole, que podem viver parcialmente enterrados (semi-infaunais), ou to-talmente enterrados (infaunais); habitantes de superfície (epifaunais), com formas não fixadas (livres) ou fixadas à superfície através de filamentos de bisso ou cimentadas. A morfologia e demais feições da concha são importantes no diagnóstico do modo de vida desses organismos, na reconstrução ambiental e demais considerações paleoecológicas.

Na bacia de Sergipe os fósseis de bivalves marinhos são abundantes e muito diversificados. Ocorrem em diversos tipos de litologias, incluindo calcários, folhelhos, siltitos e arenitos. São encontrados nos mais variados estados de preservação, desde conchas totalmente preservadas a moldes internos e externos.

Nos depósitos do Cretáceo inferior de Sergipe (ca. 125 Ma) ocorrem grandes acumulações de conchas de bivalves de água doce depositadas num sistema lacustre. Já no início da fase marinha da bacia, no Aptiano-Albiano (entre 115 e 95 Ma atrás), encontra-se uma grande diversidade de bivalves de águas rasas. Entre os bivalves infaunais de Sergipe destacam-se as formas alongadas do gênero Pleuromya. Em associação encontra-se grande abundância de outros bivalves tais como Pterotrigonia, Tellina, Pinna, além de lucinídeos. Como importante componente da epifauna, destaca-se o gênero Neithea, que ocorre principalmente em arenitos e calcários.

 

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Figura 3 - Alguns bivalves fósseis do Cretáceo da bacia de Sergipe: a – Lopha sp; b – Pterotrigonia sp; c – Neithea sp.

Os ostreídeos, por sua vez, apresentam uma ampla distribuição do Aptiano ao Campaniano, com grande diversidade de espécies. São bivalves indicadores de ambiente marinho raso, encontrados em muitos afloramentos do Cenomaniano (ca. 95 Ma), tornando-se menos abundantes no final desse estágio. Já no Turoniano, os inoceramídeos do gênero Mytiloides foram um dos componentes mais importantes na fauna de bivalves. Essa mudança na fauna reflete a subida relativa do nível do mar, que consequentemente condicionou o aprofundamento do ambiente deposicional.

Muitos gêneros e espécies que são encontrados em Sergipe, também são observados em bacias sedimentares de outras regiões. As afinidades das faunas de bivalves encontradas nos dois lados do Atlântico Sul indicam claramente a proximidade dos continentes africano e sul-americano durante o Cretáceo.

As primeiras descrições de bivalves cretáceos de Sergipe foram publicadas no final do século XIX1. Outro trabalho importante foi escrito no final da década de 302. Após esses trabalhos, essa classe foi pouco estudada. No momento, vem sendo realizado um trabalho de descrição de bivalves do Albiano inferior e Cretáceo superior (Cenomaniano-Coniaciano), cujos resultados foram, em parte, publicados3,4.

1White, C.A. 1887. Contribuções à paleontologia do Brazil. Archivos do Museu Nacional do Rio de Janeiro, 7, 1–273.

2Maury, C.J. 1937. O Cretáceo de Sergipe. Serviço Geologico e Mineralogico do Brasil, Monographia, 11, 1–283.

3Andrade, E. de J. & Souza-Lima, W. 1999. Neithea cf. tricostata Coquand (Bivalvia - Pectinidae) no Albiano inferior de Sergipe. In Congresso Brasileiro de Paleontologia, 16, Crato, Ceará. So-ciedade Brasileira de Paleontologia. Boletim de Resumos, p. 16.

4Seeling, J. & Bengtson, P. 1999. Cenomanian oysters from the Sergipe Basin, Brazil. Cretaceous Research, 20: 747–765.

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