Neste número:

  1. Os inoceramídeos
  2. Atividades & agradecimentos
PHOENIX.gif (2667 bytes)

Ano 2

Número 19

Julho 2000

sergipia.gif (27870 bytes) Os fósseis da bacia de Sergipe-Alagoas

Os inoceramídeos

Os inoceramídeos

Jens Seeling * & Edilma de Jesus Andrade#

* Universität Heidelberg, Geologisch-Paläontologisches Institut, Alemanha (e-mail: Jens.Seeling@urz.uni-heidelberg.de)

# Univ. Federal de Sergipe/Fundação Paleontológica Phoenix, Aracaju, Sergipe, Brasil (e-mail: edilmaandrade@hotmail.com)

Com a ajuda dos chamados fósseis-guia encontrados nas rochas sedimentares é possível datar afloramentos e consequentemente correlacioná-los com outros localizados em regiões muito distantes. São considerados fósseis-guia aquelas espécies que apresentaram uma rápida evolução (curto intervalo de tempo entre o aparecimento e a extinção da espécie) e uma ampla distribuição geográfica. Bons exemplos desses datadores são os amonóides (macrofósseis) e os foraminíferos (microfósseis). O mesmo não pode ser dito para os moluscos bivalves em geral, em conseqüência da sua lenta evolução. No entanto, nos períodos Jurássico (entre 208 e 145 Ma) e Cretáceo (entre 145 e 65 Ma) existiu um grupo de bivalves, pertencentes à Família Inoceramidae, que apresentava todas as características necessárias para serem bons fósseis-guia.

Os inoceramídeos apareceram pela primeira vez no Período Permiano (entre 290 e 245 milhões de anos atrás), evoluíram durante o Jurássico e Cretáceo com grande número de espécies e extinguiram-se antes do final do Cretáceo, no Maastrichtiano. Cada espécie teve duração média de 0,2 a 0,5 milhões de anos, o que pode ser considerada uma rápida evolução quando comparada, por exemplo, às demais espécies de bivalves, cuja duração média foi de 2 milhões de anos.

Figura 1 – Rhyssomytiloides mauryae, um inoceramídeo da porção basal do Turoniano inferior de Sergipe (coleção DNPM, foto M. H. R. Hessel).

Nos períodos Jurássico e Cretáceo os inoceramídeos difundiram-se globalmente e tornaram-se elementos dominantes em muitas faunas bentônicas, mesmo em ambientes com taxas de oxigênio bastante reduzidas. Eles ocorreram em diferentes tipos de fácies/ambientes, mostrando-se como espécies relativamente tolerantes a tipos diversos de condições ambientais.

Os inoceramídeos foram bivalves exclusivamente marinhos, epifaunais ou semi-infaunais, que viviam presos ao sedimento através de filamentos de bisso. Apresentam conchas bastante variadas, desde formas subequivalves a fortemente equivalves, alongadas a subcirculares. O comprimento da concha varia de alguns centímetros a quase dois metros, constituindo um grupo de bivalves que atingiu grandes dimensões.

A primeira menção à existência de inoceramídeos em Sergipe foi feita por Hartt em 18681. Quase meio século depois, outros trabalhos foram publicados por Maury2,3. Nas décadas seguintes foram citados em trabalhos generalizados, e apenas a partir de 1980 foram publicados trabalhos específicos sobre este grupo4,5,6.

Na bacia de Sergipe, até o momento, são conhecidos seis gêneros de inoceramídeos com numerosas espécies: Inoceramus, Cremnoceramus, Mytiloides, Rhyssomytiloides, Endocostea e Sergipia. Este último gênero tem seu nome derivado do Estado de Sergipe, onde foi identificado pela primeira vez2.

Os inoceramídeos de Sergipe são úteis para datação de rochas do Cretáceo, possibilitando sua correlação com a escala estratigráfica internacional.

Figura 2 – Mytiloides sp, um inoceramídeo bastante comum em rochas do Turoniano inferior de Sergipe (coleção Phoenix).
Na bacia de Sergipe ocorrem inoceramídeos desde o Albiano, embora tenham sido pouco estudados. O gênero Inoceramus está presente em camadas do Cenomaniano superior, se bem que normalmente as espécies sejam raras. Na parte mais basal do Turoniano ocorrem as primeiras espécies de Mytiloides. Elas tornam-se muito abundantes no Turoniano inferior e em algumas camadas elas ocorrem em grande quantidade de exemplares. Essa mudança faunal indica que o ambiente deposicional na bacia de Sergipe a partir do final do Cenomaniano até o início do Turoniano foi tornando-se cada vez mais profundo. Em camadas mais jovens do eo-Turoniano e do meso-Turoniano, Mytiloides ocorre junto com os gêneros Sergipia e Rhyssomytiloides. No Campaniano verifica-se a presença dos gêneros Inoceramus e Endocostea em arenitos depositados nas porções mais externas da plataforma. Nas rochas desta idade foram encontrados alguns exemplares de Inoceramus de grandes dimensões, com comprimento superior a 50 cm, sendo considerado o maior representante de bivalve encontrado na bacia até o momento.
Investigações realizadas por Hessel6 e posteriormente por Seeling7 têm mostrado que é possível estabelecer um zoneamento local para Sergipe baseado na distribuição vertical das espécies de inoceramídeos. Isto enfatiza a importância da bacia de Sergipe para a estudos integrados de correlação e integração bioestratigráfica, permitindo uma correlação mais segura dos eventos biológicos e geológicos desta bacia com outras por todo o mundo.
Figura 3 – Endocostea balticus – um inoceramídeo característico do Campaniano (cerca de 75 Ma) da bacia de Sergipe (coleção Phoenix).

1Hartt, C.F. 1868. A naturalist in Brazil. The American Naturalist, 2: 1-93.

2Maury, C.J. 1925. Fosseis terciarios do Brasil, com descripção de novas formas cretaceas. Serviço Geológico e Mineralógico do Brasil, Monographia, 4: 1-305, estampas 1-24, 2 tabelas, 1 mapa. Rio de Janeiro.

3Maury, C.J. 1937. O Cretaceo de Sergipe. Serviço Geológico e Mineralógico do Brasil, Monographia, 11: 1-263, 6 tabelas; Album das Estampas, I-XXXV, estampas 1-28. Rio de Janeiro.

4Kauffman, E.G. & Bengtson, P. 1985. Mid-Cretaceous inoceramids from Sergipe, Brazil: a progress report. Cretaceous Research, 6: 311-315.

5Hessel, M.H.R. 1986. Alguns inoceramídeos (Bivalvia) radialmente ondulados do Turoniano Inferior de Sergipe. Departamento Nacional da Produção Mineral, Série Geologia, 27: 227-237. [Coletânea de Trabalhos Paleontológicos, Série Didática 2]. Brasília.

6Hessel, M.H.R. 1988. Lower Turonian inoceramids from Sergipe, Brazil: systematics, stratigraphy and palaeoecology. Fossils and Strata, 22: 1-49.

7Seeling, J. 1999. Palaeontology and biostratigraphy of the Cenomanian-Turonian boundary beds of the Sergipe Basin, northeastern Brazil - with systematic descriptions of bivalves and echinoids. Geologisch-Paläontologisches Institut der Universität Heidelberg, Tese de Doutorado não publicada, 163 pp.

Anterior Acima Próximo

Anterior ] Acima ] Próximo ]