Neste número:

  1. Os gastrópodos
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Ano 2

Número 20

Agosto 2000

cerith.gif (15410 bytes) Os fósseis da bacia de Sergipe-Alagoas

Os gastrópodos

Os gastrópodos

Rita de Cassia Tardin Cassab *

* Museu de Ciências da Terra / DNPM, Rio de Janeiro, Brasil (e-mail: rcassab@cristal.cprm.gov.br)

Entre os moluscos, a classe dos gastrópodos é a que possui maior número de espécies. Junto aos insetos, são considerados os animais mais bem sucedidos dos dias de hoje, pela grande variedade de ambientes que ocupam e pela diversidade de hábitos alimentares. Esses dois fatores, associados à sua abundância, fazem com que esse grupo tenha potencial para fornecer informações importantes para a pa-leontologia e estratigrafia.

Em sua maioria, os gastrópodos têm hábitos aquáticos, mas conquistaram os ambientes terrestres ao desenvolver pulmões rudimentares. Nos mares, vivem desde a zona intermaré até as regiões mais profundas. Quanto aos hábitos alimentares, predominam os herbívoros, que raspam algas e folhas de plantas continentais ou aquáticas. Os gastrópodos carnívoros vivem preferencialmente nos mares e tanto podem se alimentar de animais sedentários, como ostras e esponjas, como também caçar ouriços, outros moluscos e pequenos peixes. Algumas espécies se alimentam ainda de detritos depositados sobre o substrato, matéria orgânica em suspensão e até parasitam outros animais.

Os gastrópodos, de um modo geral, são constituídos por uma parte mole, o corpo propriamente dito, e uma parte dura, a concha, que atua como abrigo. Algumas espécies são desprovidas de concha, como as lesmas de jardim e as lebres-do-mar; em outras, ela é apenas vestigial.

O corpo possui duas regiões, uma ventral, onde ficam a cabeça e um pé grande e achatado, e uma dorsal, composta pela massa visceral, onde se situam os sistemas funcionais1,2. Na cabeça estão um par de olhos, dois pares de tentáculos e na parte inferior, a boca com a rádula, uma estrutura composta por fileiras de minúsculos dentes, utilizados para raspar. Entre a cabeça e o pé não há uma delimitação precisa e esse conjunto está unido à massa visceral, que pode estar enrolada e protegida dentro da concha (Figura 1). O corpo é recoberto pelo manto, responsável pela fabricação da concha calcária. Há uma cavidade entre o manto e a concha, sobre a cabeça do animal, onde localizam-se as brânquias e as aberturas dos sistemas excretor, reprodutivo e digestivo.

Uma estrutura morfológica típica é o opérculo, um disco córneo ou calcário que ocorre na parte posterior do pé e funciona como um escudo protetor fechando a abertura da concha.

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Figura 1 – Aspectos morfológicos externos dos gastrópodos.

 

A respiração ocorre através de uma ou duas brânquias franjadas, localizadas na cavidade do manto. A água é conduzida para dentro desta cavidade pelo sifão inalante e depois expelida pela abertura da concha, formando uma corrente que garante a renovação constante de oxigênio.
Gastr_conc.gif (48089 bytes) A concha é calcária, externa, enrolada de forma helicoidal. Sofre acresção, principalmente nas bordas da abertura, para acompanhar o desenvolvimento do organismo. É a parte estudada pelos paleontólogos, preservada nos sedimentos, pois a parte mole se decompõe logo após a morte do animal (Figura 2)1.
Figura 2 – Alguns caracteres morfológicos das conchas dos gastrópodos.

 

Mais de 30 gêneros de gastrópodos marinhos já foram registrados nas rochas da bacia de Sergipe. Muitos ainda têm representantes atuais, como Natica, Turritella e Cerithium. Outros se extinguiram no final do Cretáceo, como Tylostoma, Paraglauconia, Peruviella e Nerinea.

Gastrópodos do gênero Natica são carnívoros, sendo uns dos responsáveis pelos furos perfeitos encontrados em algumas conchas nas praias. Turritella tem a concha alongada, espira alta e possui o hábito de se enterrar na areia, deixando apenas a abertura para fora. São animais gregários, formando grandes colônias, preferindo as regiões com correntes de águas mais frias. São fósseis utilizados em zoneamentos estratigráficos e como indicadores ambientais. As conchas de Cerithium são pequenas, com um canal sifonal relativamente desenvolvido. São animais herbívoros, comuns em nossos litorais junto às algas marinhas na região intermaré, em ambientes arenosos ou argilosos.

Entre as espécies extintas, Peruviella dolium3, do Albiano superior da bacia de Sergipe, foi registrada também em rochas da mesma idade no Texas, México, Peru e Angola. O gênero Paraglauconia também teve ampla distribuição nos mares da Europa durante o Albiano e as espécies de Tylostoma, características das camadas do Turoniano da Península Ibérica, viveram em abundância nas costas do Nordeste.

A maior parte dos gêneros que ocorre na bacia de Sergipe está presente nas áreas da província paleobiogeográfica tetiana. Essa província, de águas quentes e relativamente rasas, ocupava a região equatorial durante o final do Cretáceo4.

Comparando-se as famílias dos gastrópodos da bacia de Sergipe e seus representantes atuais, verifica-se que a maioria possui hábitos carnívoros. Isto reflete a expansão ocorrida com os animais carnívoros no final do Cretáceo. Nesta época, em decorrência da separação dos continentes, surgiram muitas áreas de plataforma continental, originando novos biótopos marinhos. Isto favoreceu o desenvolvimento de vários grupos de animais carnívoros, entre eles os gastrópodos, que tornaram-se predadores bastante vorazes5.

1Barnes, R.D. & Ruppert, E.E. 1996. Zoologia dos Invertebrados. São Paulo, Ed. Roca, 6a ed., 1179 pp.

2Clarkson, E.N.K. 1979. Invertebrate paleontology and evolution. London, George Allen & Unwin Ltd, 323 pp.

3Cassab, R.C.T. 1982. Sobre a ocorrência de Peru-viella Olsson, 1944 no Cretáceo do Brasil (Mollusca - Gastropoda). Anais da Academia Brasileira de Ciências, 54(3): 575-578.

4Sohl, N.F. 1987. Cretaceous gastropods: contrasts between Tethys and the temperate provinces. Journal of Paleontology, 61(6): 1085-1111.

5Taylor, J.D. 1990. The evolution of predators in the late Cretaceous and their ecological significance. In: Boucot, A. J. (Ed.), Evolutionary Paleobiology of behavior and coevolution. Elsevier Amsterdam, pp. 229-240.

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