Neste número:

  1. Os crinóides e asteróides
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Ano 2

Número 22

Outubro 2000

Roveacrin.gif (160632 bytes) Os fósseis da bacia de Sergipe-Alagoas

Os crinóides e asteróides

Os crinóides e asteróides

Wagner Souza-Lima* & Cynthia Lara de Castro Manso #

* Fundação Paleontológica Phoenix, Aracaju, Sergipe, Brasil (e-mail: wagnerl@hotmail.com)

# Fundação Paleontológica Phoenix, Aracaju, Sergipe, Brasil (e-mail: mmarchioro@uol.com.br)

Os equinodermas são um grupo muito diversificado e de ampla distribuição estratigráfica, ocorrendo desde o Cambriano até os nossos dias. São divididos em quatro subfilos: Homalozoa, Crinozoa, Asterozoa e Echinozoa. Os Homalozoa são exclusivamente fósseis, encontrados entre o Cam-briano e o Devoniano1, ausentes na bacia de Sergipe-Alagoas. Os equinóides (subfilo Echinozoa), foram objeto do número anterior desta publicação. Neste número discutiremos os Crinozoa e Asterozoa e seus representantes fósseis na bacia.

O subfilo Crinozoa compreende os equinodermas com simetria radial pentâmera, um corpo globóide, piriforme ou em forma de vaso ("cálice"), que protege a massa visceral, e apêndices com forma de braços, utilizados para a captura de alimentos. São animais que vivem normalmente fixados a um substrato através de estruturas em forma de garras (cirros), de modo que a superfície oral está, em geral, voltada para cima. Todos os crinozoários, exceto os crinóides, são paleozóicos, sendo que apenas este último grupo está representado na bacia de Sergipe.

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Os crinóides ou "lírios do mar" constituem a classe mais diversificada dos crinozoários. Surgiram no Ordoviciano, atingindo o ápice de diversidade ainda na era Paleozóica, quando declinaram. São caracterizados, em geral, por uma haste flexível, uma coroa e braços calcários. Os roveacrinídeos, um grupo de pequenos crinóides do Mesozóico, possuíam um cálice sem haste e um esqueleto poroso, que facilitava sua natação (Figura 1).

Até o momento, apenas roveacrinídeos foram descritos na bacia de Sergipe. Há pouco tempo, eram fósseis apenas reconhecidos pelo estudo de fragmentos e pela analogia a outro grupo fóssil, os saccocomídeos, de idade jurássica. Em Sergipe, foram reconhecidos a partir do estudo de lâminas delgadas de carbonatos cenomanianos a coniacianos, sendo distinguidas oito espécies2,5. Algumas espécies possuem distribuição estratigráfica bastante res-trita, sendo bons biomarcadores na estratigrafia da bacia. Podem ainda ser utilizados como indicadores paleoambientais de sedi-mentos de plataforma externa e/ou talude. São organismos bastante diminutos: seu cálice chega a, no máximo, 3 mm de comprimento. Supunha-se que fossem organismos pelágicos, provavelmente planctônicos, com base em analogias com os saccocomídeos. A descoberta de um espécime completo (Roveacrinus spinosus Peck, 1943) em um afloramento do Turoniano de Sergipe mostrou que estes organismos eram epibentônicos3. A abundância dos roveacrinídeos na bacia é o reflexo das condições anóxicas que predominaram na região entre o Cenomaniano e o Coniaciano, particularmente favoráveis ao seu desenvolvimento.

Figura 1 – Reconstrução esquemática de um roveacrinídeo5.

O subfilo Asterozoa engloba os equinodermas que possuem um corpo de simetria geralmente pentagonal, com a boca situada na superfície ventral, voltada para baixo, e um esqueleto calcário. Compreendem os asteróides, ofiuróides e somasteróides.

Os asteróides ("estrelas-do-mar") são organismos nos quais o sistema ambulacral perdeu parte de sua função nutricional, adquirindo importante função locomotora, auxiliado por pseudopódios, pequenos tubos que produzem sucção e propiciam sua fixação ao substrato. O esqueleto dos asterozoários, de um modo geral, é constituído por vários ossículos fracamente interconectados, de maneira que, com a morte do animal, ele é facilmente desagregado, tornando-os raros como fósseis. É um grupo de evolução muito lenta, de modo que os organismos atuais diferem muito pouco de seus ancestrais fósseis. Por esta razão, embora não tenham aplicação bioestratigráfica, o estudo da biologia dos asteróides recentes permite entender o ambiente no qual viviam seus ancestrais. São carnívoros, ativos predadores de ouriços do mar, pólipos de corais, moluscos e mesmo de outros asteróides, abrindo facilmente a concha de alguns bivalves com a força de seus pés ambulacrais.

O único asteróide descrito da bacia de Sergipe é um exemplar bastante desgastado, curiosamente coletado no final do século 19 de uma pedra de calçamento da cidade de Laranjeiras4 (Figura 2).

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Figura 2 – Ilustração original de Uraster janettae Maury, 1937, o único asteróide descrito da bacia de Sergipe4.

Os ofiuróides distinguem-se dos asteróides pelo disco central bem definido, formado por placas calcárias de onde par-tem braços finos formados por vértebras articuladas. Possuem a boca na superfície inferior, composta por várias placas ("dentes"). Alimentam-se de pequenas partículas orgânicas, trazidas até a boca pelos pódios dos braços. Não são fósseis encontrados facilmente devido à desarticulação de seu esqueleto após a morte, sendo muitas vezes identificados por vértebras e placas isoladas. Não foram ainda estudados na bacia de Sergipe-Alagoas.

Dos equinodermas presentes na bacia de Sergipe-Alagoas, os roveacrinídeos constituem um dos grupos que mais podem contribuir para a bioestratigrafia da bacia, permitindo a ampliação dos métodos já utilizados (amonóides, inoceramídeos, mi-crofósseis), contribuindo também com a aplicação deste método na escala global, onde é ainda uma ferramenta em estudo5.

1Ubaghs, G. 1967. General characters of Echinodermata. In R. C. Moore (Ed.): Treatise on Invertebrate Paleontology, Part S, Echinodermata 1 (General characters: Homalo-zoa-Crinozoa). Geological Society of America, University of Kansas, pp. S3-S60.

2Ferré, B. & Berthou P.-Y. 1994. Roveacrinidal remains from the Cotinguiba Formation (Cenomanian-Turonian) of the Sergipe Basin (NE-Brazil). Acta Geologica Leopoldensia, 17(39/1): 299-313.

3Ferré, B. & Bengtson, P. 1997. An articulated roveacrinid from the Turonian of the Sergipe Basin, Brazil. In: Bechstaedt, T.; Bengtson, P.; Greiling, R. & Schweizer, V. (Eds.): 18th IAS Regional European Meeting of Sedimentology, Heidelberg, 2-4 Setembro, 1997, Gaea heidelbergensis, 3: 128-129.

4White, C. A. 1887. Contribuições á paleontologia do Brazil. Archivos do Museu Nacional do Rio de Janeiro, 7: 1-273, estampas 1-28. Rio de Janeiro.

5Ferré, B.; Berthou P.-Y. & Bengtson, P. 1996. Apport des crinoides rovéacrinidés à la stratigraphie du Crétacé Moyen du bassin de Sergipe (nordeste, Brésil). Strata, Série 1, 8: 101-103.

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