Neste número:

  1. Os braquiópodes
PHOENIX.gif (2667 bytes)

Ano 2

Número 23

Novembro 2000

Terebratulida.gif (24990 bytes) Os fósseis da bacia de Sergipe-Alagoas

Os braquiópodes

Os braquiópodes

Vera Maria Medina da Fonseca*, Wagner Souza-Lima# & Peter Bengtson$

* Museu Nacional/UFRJ, Dept° de Geologia e Paleontologia, Rio de Janeiro, Brasil (e-mail: vmedina@acd.ufrj.br)

# Fundação Paleontológica Phoenix, Aracaju, Sergipe, Brasil (e-mail: wagnerl@hotmail.com)

$Universität Heidelberg, Geologisch-Paläontologisches Institut, Alemanha (e-mail: bengtson@uni-hd.de)

Há cerca de 390 milhões de anos, durante o Devoniano, a maior parte do território brasileiro estava coberta pelo mar. A terra firme apenas começava a ser conquistada: a vida era essencialmente marinha e muito diferente daquela dos mares atuais. A maioria das comunidades bentônicas desse período era dominada por um grupo de invertebrados atualmente muito pouco conhecido: os braquiópodes.

Animais bentônicos exclusivamente marinhos, os braquiópodes possuem suas partes moles protegidas por uma concha mineralizada. Esta é constituída por duas valvas, o que os torna, à primeira vista, semelhantes aos moluscos bivalves com os quais, entretanto, não possuem nenhum parentesco. Alimentam-se através de um órgão filamentoso, o lofóforo (Figura 1), filtrando microorganismos e detritos que se encontram em suspensão na água do mar.

Os braquiópodes podem ser divididos em dois grupos: os articulados, que possuem um mecanismo de articulação para abertura e fechamento das valvas e os inarticulados, que não possuem tal mecanismo, sendo esta tarefa desempenhada exclusivamente por músculos.

Braquiop_morf.gif (38720 bytes)
Figura 1 – Seção esquemática de um braquiópode articulado1.

Os inarticulados foram os primeiros a surgirem no início do Cambriano, logo seguidos pelos articulados. Estes últimos, porém, a partir de uma grande diversificação no Ordoviciano, tornaram-se um dos grupos dominantes da fauna marinha do Paleozóico (95% dos braquiópodes fósseis e viventes são articulados).

Grande parte dos braquiópodes são, e provavelmente foram, animais sésseis fixados ao substrato por um pedículo. Os modos de vida incluem, além das formas clássicas fixadas pelo pedículo, formas cimentadas, incrustantes, fixadas por espinhos ou por fibras do manto, formas livres e algumas que possuem uma certa mobilidade acima ou no interior do substrato em que vivem. Entre estes últimos destacam-se os Lingulida, braquiópodes inarticulados com concha organofosfática, escavadores em ambientes de intermaré e submaré rasa. Por serem excepcionalmente bem adaptados a seu nicho, conservaram-se praticamente sem mudanças morfológicas na concha por quase 600 milhões de anos, desde seu aparecimento até os dias atuais.

Os primeiros registros de braquiópodes datam do Cambriano, quando ocorreu um dos mais importantes eventos da história da vida: o surgimento de conchas e carapaças nos invertebrados marinhos. Atingiram picos de diversidade durante o Paleozóico. Esta diversidade é detectada no registro fossilífero pela grande variedade de formas de concha, que medem desde alguns milímetros a mais de 30 cm, como algumas formas de Strophomenida do Paleozóico. Este último grupo possui algumas das mais díspares e espetaculares formas de concha entre os braquiópodes, incluindo formas extremamente espinhosas e algumas que mimetizam corais.

Foram cerca de 260 milhões de anos de predomínio nos mares até a grande extinção do final do Permiano, que marcou o fim do Paleozóico, quando muitas famílias de braquiópodes foram extintas. Novas famílias se estabeleceram nos mares mesozóicos, mas nunca mais o grupo atingiu a diversidade e importância que possuíra no Paleozóico. Conhecem-se atualmente mais de 4500 gêneros, dos quais somente cerca de 120 habitam os mares atuais.

Cada período do Paleozóico possui uma composição faunística única de braquiópodes, possibilitando a identificação de suas idades relativas. Alguns gêneros e espécies de curta duração permitem a datação dos estratos onde ocorrem e, em certos casos, o estabelecimento de biozonas. Os braquiópodes têm sido um dos organismos mais utilizados para definição de unidades paleobiogeográficas marinhas de plataforma rasa do Siluriano e Devoniano. Para alguns grupos foram estabelecidas relações entre a morfologia da concha e o paleoambiente. São também bastante utilizados para identificação e descrição de associações bentônicas.

A partir da era mesozóica, os estudos bioestratigráficos com braquiópodes tornam-se mais difíceis. Como as formas mesozóicas tiveram, em geral, longa duração geocronológica e pequena distribuição geográfica, sua utilidade bioestratigráfica é restrita a escalas locais.

Com a extinção dos grandes grupos paleozóicos, a fauna dos mares mesozóicos e cenozóicos passou a ser dominada por dois grupos de braquiópodes articulados, os Terebratulida e os Rhynchonellida, ao lado de poucos inarticulados das ordens Lingulida e Discinida. Mesmo não possuindo mais o domínio dos mares, os braquiópodes foram localmente abundantes em alguns estratos do Cretáceo superior.

Embora o registro de invertebrados fósseis no Cretáceo da bacia de Sergipe-Alagoas seja extremamente numeroso, a presença de braquiópodes nessas rochas é extremamente rara. Até recentemente, só havia sido descrito um único exemplar de Terebratulida - o grupo de braquiópode articulado mais comum nos mares atuais - coletado em uma pedreira de calcário perto da cidade de Maruim e referido à espécie Magas sergipensis2. Coletas mais recentes nesta área forneceram um grande número de exemplares que estão sendo ainda estudados. Trata-se de uma área cujas características paleoecológicas foram particularmente favoráveis ao desenvolvimento deste grupo, visto que estes organismos dominam, localmente, a fauna bentônica.

Recentemente foram identificados quatro exemplares de braquiópodes inarticulados em sedimentos do Cretáceo superior de Sergipe3. Três deles foram referidos à Lingularia? bagualensis (Wilckens, 1907), uma espécie de Lingulida, e o outro a um Discinida indeterminado. No mesmo trabalho foram discutidas as razões que explicariam a extrema raridade do grupo no Nordeste do Brasil, sugerindo que os baixos níveis de oxigênio presentes na interface sedimento-água do oceano Atlântico Sul, durante o Cretáceo, de forma parecida ao que acontece nos ambientes semelhantes dos mares atuais, teriam impedido a sobrevivência de qualquer forma de braquiópode, com exceção de táxons mais tolerantes como os Lingulida e Discinida.

1Williams, A. & Rowell, A. J. 1965. Brachiopod anatomy. In A. Williams et al., Treatise on Invertebrate Paleontology, Part H, Brachiopoda, Volume 1. Geological Society of America, University of Kansas, pp. H6-H57.

2Oliveira, E. de 1939. Magas sergipensis, um brachiopodo do Cretaceo de Sergipe. Annaes da Academia Brasileira de Sciencias, 11(3): 195-199.

3Holmer, L. E. & Bengtson, P. 1996. Implications of the rare occurrences of brachiopods in the Upper Cretaceous of Sergipe, Brazil. In: Simpósio sobre o Cretáceo do Brasil, 4, Rio Claro, 1996. UNESP, Boletim, pp. 67-69. Rio Claro.

Anterior Acima Próximo

Anterior ] Acima ] Próximo ]