Neste número:

  1. Os briozoários
  2. Mais um ano de atividades
  3. Agradecimentos
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Ano 2

Número 24

Dezembro 2000

Um briozoário do Campaniano (cerca de 75 milhões de anos) da bacia de Sergipe (acervo Phoenix). Os fósseis da bacia de Sergipe-Alagoas

Os briozoários

Os briozoários

Facelúcia Barros Côrtes Souza * & Rilza da Costa Tourinho Gomes #

* Laboratório de Estudos Costeiros (LEC), IGEO/CPGG/UFBA, Brasil (e-mail: faceluci@cpgg.ufba.br)

# Laboratório de Estudos Costeiros (LEC), IGEO/CPGG/UFBA, Brasil (e-mail: rilzagomes@son.com.br)

Os briozoários são animais invertebrados, coloniais, bentônicos, sésseis, contendo cerca de 3500 espécies marinhas atuais, sendo apenas uma ordem dulciaqüícola. Habitam desde a zona litorânea até a zona abissal, sendo abundantes entre 20 e 80 m de profundidade. Vivem presos a rochas, estacas, conchas, algas e mesmo outros animais.

Os briozoários pertencem ao filo Polyzoa, porém são comumente denominados de Bryozoa ou também de Ectoprocta, pelo fato de possuírem o ânus fora da coroa de tentáculos.

As colônias, denominadas de zoários, são constituídas de zoóides com cerca de 0,5 mm de comprimento (Figura 1). O zoóide é constituído de polipídio, envolvido por um saco membranoso, o cistídeo. O polipídio possui uma coroa de tentáculos (lofóforo) que contorna a boca. Ela abre-se no tubo digestivo, em forma de U, terminando por um ânus, que se abre para o exterior, fora da coroa de tentáculos. O cistídeo é a parede corporal do animal, limitado pela epiderme, estando recoberto pela cutícula. Esta última pode ser composta de proteína-quitina ou carbonato de cálcio. Quando calcária, a cutícula forma um exoesqueleto rígido, denominado de zoécio, característico deste grupo e presente nas espécies marinhas, sendo a porção preservada como fóssil. Quanto à natureza, as colônias podem ser quitinosas, gelatinosas e calcárias, com forma variável. As espécies que não são carbonáticas, possuem colônias estoloníferas. Os estolhos são eretos ou rastejantes, semelhantes a caules. As espécies carbonáticas podem ser incrustantes (Figura 2), unilamelares ou possuir o hábito laminar livre, foliáceo. As colônias eretas, articuladas ou rígidas, adaptadas ou não ao impacto das ondas e correntes, possuem zoécios dispostos em uma ou mais séries, formando ramificações semelhantes a plantas. As colônias cônicas ou esféricas são livres, adaptadas a substrato inconsolidado (p. ex., Discoporella, Cupuladria, Mamillopora, Conesharellina e Lunulites).

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Figura 1 – Diagrama esquemático de uma colônia de Cheilostomatida incrustante1.

Os briozoários possuem polimorfismo: os autozoóides são responsáveis pela formação da colônia, e os heterozoóides são adaptados a funções especiais, tais como incubação (ovicélula ou gonozoóide), defesa (aviculário) e limpeza e locomoção (vibráculo). O principal alimento é o fitoplâncton (diatomáceas, cocolitoforídeos e dinoflagelados). Bactérias e detritos orgânicos do sedimento são utilizados pelas espécies que vivem em maiores profundidades. Os briozoários são animais hermafroditas, com fecundação interna ou externa, mas geralmente isto ocorre entre indivíduos de colônias diferentes. Do ovo, forma-se uma larva planctônica que, após algumas horas ou dias, se fixa ao suporte, formando um novo indivíduo, que por brotamento (reprodução assexuada), originará uma nova colônia. A expectativa de vida dos briozoários varia muito, podendo ser de um a até doze anos, com crescimento reduzido ou parado durante o inverno. Os briozoários dulciaqüícolas reproduzem-se assexuadamente através de corpos especiais, com massa interna de células e material alimentar armazenados – os estatoblastos. As atividades fisiológicas dos briozoários são controladas pelo seu sistema hidrostático interno, responsável pela retração e protrusão do lofóforo.

Os briozoários são representados por três classes2. A classe Stenolaemata é dividida em quatro ordens: Cyclostomatida (única ordem atual), Cystoporatida, Trepostomatida e Cryptostomatida. Esta classe abrange os briozoários marinhos com zoóides tubulares, paredes calcificadas que se fundem nos zoóides adjacentes e orifício circular, terminal, nos quais a protrusão do lofóforo não depende da parede corporal.

A classe Gymnolaemata abrange briozoários principalmente marinhos constituídos por colônias polimórficas, zoóides cilíndricos ou achatados e lofóforo circular, cuja protrusão depende da deformação da parede corporal. Esta classe se divide em duas ordens: Ctenostomatida e Cheilostomatida.

A classe Phylactolaemata abrange briozoários dulciaqüícolas, com zoóide cilíndrico e lofóforo em forma de ferradura (exceto em Fredericella), um epístomo (lábio oco que se projeta sobre a boca), uma musculatura na parede corporal e uma cobertura não calcificada, com celoma contínuo entre os indivíduos, não polimórficos.

Bons indicadores ecológicos, como a maioria dos animais bentônicos, os brio-zoários são extremamente exigentes às variações ambientais, fazendo deles bons bioindicadores de parâmetros sedimentológicos (tamanho e natureza do substrato ou suporte), hidrológicos (salinidade, teor de oxigênio e CO2 dissolvido, pH, temperatura, profundidade, pressão e turbidez) e hidrodinâmicos. Estes parâmetros são refletidos pela distribuição das classes e ordens, pelas espécies bioindicadoras e pelas suas formas zoariais.

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Briozoários são utilizados como fósseis guias por possuírem formas de ampla distribuição geográfica e curta amplitude temporal. Registrados a partir do Ordoviciano, provavelmente tiveram origem no Pré-Cambriano. A classe Stenolaemata foi bem representada nas faunas paleozóicas; seus representantes foram importantes construtores recifais. Três de suas ordens extinguiram-se no final do Permiano (Trepostomatida, Cryptostomatida e Cystoporatida). No Mesozóico ficou representada apenas pela ordem Cyclostomatida. A classe Gymnolaemata, também presente na fauna paleozóica, foi representada pela Ordem Ctenostomatida. No final do Jurássico surgiram os briozoários da ordem Cheilostomatida, dominantes no final do Cretáceo e durante o Cenozóico. A classe Phylactolaemata surgiu provavelmente no início do Cretáceo, distribuindo-se até o Recente.

Estes organismos não receberam ainda a devida atenção na bacia de Sergipe-Alagoas e mesmo em outras bacias brasileiras. Na bacia de Sergipe são comuns as formas incrustantes em rochas do Albiano. Algumas formas do Campaniano superior estão sendo estudadas.

Figura 2 - Um briozoário Cheilostomatida incrustante do Campaniano da bacia de Sergipe (acervo Phoenix).

No Brasil, briozoários fósseis foram assinalados principalmente do Paleozóico da bacia do Amazonas3, provenientes das formações Maecuru (Devoniano) e Itaituba (Carbonífero), e do Mioceno da bacia de Barreirinhas (Fm. Pirabas). No Nordeste do Brasil foram descritos da Fm. Jandaíra, Cretáceo superior da bacia Potiguar3, e da Fm. Maria Farinha, Paleoceno da bacia de Pernambuco-Paraíba4.

Nas plataformas atuais do norte e sul do Brasil, os briozoários formam sedimentos do tipo areia e cascalho carbonáticos, junto com algas coralinas, foraminíferos bentônicos, moluscos e, localmente, com altas concentrações de alga Halimeda e tubos de serpulídeos, associados ou não a recifes algais. A análise de amostras destas areias, p.ex., em bancos da área de antepraia da região de Ilhéus, permitiu identificar 46 espécies desta microfauna. O maior número de espécies registrado até o presente foi em São Paulo (127 espécies), seguido da Bahia (106) e Rio de Janeiro (54). Nos demais estados, os estudos inexistem ou são escassos, o que justifica o número pequeno de espécies descritas, como por exemplo em Sergipe, onde foram registradas sete espécies.

1Bassler, R. S. 1953. Bryozoa. In R. C. Moore (Ed.): Treatise on Invertebrate Paleontology, Part G, Bryozoa. Geological Society of America, University of Kansas, pp. G1-G253.

2Boardman, R. S.; Cheetham, A. H. & Cook, P. L. 1983. Introduction to the Bryozoa. In R. A. Robinson (Ed.): Treatise on Invertebrate Paleontology, Part G, Bryozoa (Revised): Introduction, Order Cystoporata, Order Cryptostomata. Geological Society of America, University of Kansas, 651 pp.

3Barbosa, M. M. 1970. Briozoários fósseis e recentes do Brasil. Publicações Avulsas do Museu Nacional, 54: 1-23. Rio de Janeiro.

4Buge, E. & Muniz, G. da C. B. 1974. Lunulites (Heteractis) barbosae, nouvelle spèce de bryozoaire lunulitiforme (Bryozoa, Cheilostomata) du Paléocène du Nord-Est du Brésil. Annales de Paléontologie (Invertebrés), 60(2): 191-202, 2 estampas.

Mais um ano de atividades

A Fundação Paleontológica Phoenix completa mais um ano de atividades, realizando esforços crescentes na divulgação da paleontologia e geologia da bacia de Sergipe-Alagoas e na criação de um museu paleontológico na região. Nosso informativo completa também dois anos de distribuição. Neste ano ele passou a contar com o código ISSN (International Standard Serial Number), identificando-o como uma publicação seriada. Nossa próxima meta será indexar esta publicação, de maneira a facilitar ainda mais sua divulgação e localização. Iniciamos também uma nova série sobre os grupos fósseis da bacia de Sergipe-Alagoas, que tem tido a participação de pesquisadores convidados de várias instituições do Brasil e do exterior.

Aprimorando os meios de divulgação das nossas atividades e da geologia e paleontologia da bacia de Sergipe-Alagoas, contamos agora com a nossa home page na internet. Além de trazer várias informações sobre a fundação e suas atividades, temos todos os números do PHOENIX também disponíveis on-line. Nosso endereço é:

http://www.fundphoenix.cjb.net/

Neste ano nossa coleção foi bastante ampliada, com várias coletas realizadas, principalmente nas seqüências marinhas do Estado de Sergipe. Nossa primeira grande expedição fora da bacia de Sergipe-Alagoas, realizada em Março e voltada para a seção marinha da bacia de Camamu, forneceu um grande número de fósseis, de modo que a fundação tem hoje uma das mais completas coleções de fósseis daquela bacia. Foram ainda incorporados ao acervo material procedente das bacias do Recôncavo, Paraná e Pelotas, no Brasil, e também do Cretáceo superior e Terciário da Tunísia, Terciário da Sicília e Jurássico da bacia de Neuquen, na Argentina. A informatização da coleção encontra-se em constante avanço, o que tem facilitado a consulta ao numeroso acervo.

Durante este ano, a Fundação forneceu apoio a diversas visitas técnicas de pesquisadores à bacia de Sergipe. Estas visitas visaram principalmente o estudo das sucessões marinhas da bacia, e tiveram a participação de pesquisadores das universidades de Brasília, UNESP (Rio Claro, São Paulo), UNISINOS (Rio Grande do Sul), Cambridge e Greenwich (Inglaterra) e Heidelberg (Alemanha). Em alguns casos, procurou-se proporcionar passeios turísticos na região para os visitantes, de modo a divulgar também parte das atrações dos estados de Sergipe e Alagoas.

Um dos nossos membros, Edilma de Jesus Andrade, encontra-se na Alemanha, onde realizará estudos de pós-graduação na Universität Heidelberg, com o projeto intitulado "Lower Turonian to lowermost Coniacian palaeontology and biostratigraphy of the Sergipe Basin, Brazil".

A Fundação realizou em Aracaju, em 18 de Dezembro de 2000, a 2a Reunião Anual Regional da Sociedade Brasileira de Paleontologia, a PALEO 2000.

A realização da PALEO 2000 contou com importante apoio da PETROBRAS, Unidade de Negócios de Sergipe e Alagoas, que disponibilizou recursos humanos e logísticos fundamentais para o sucesso do evento.

Participaram do encontro pesquisadores da Fundação, da Universidade Federal de Sergipe e da Universidade Regional do Cariri, Ceará.

Os seguintes trabalhos e projetos foram apresentados durante o evento:

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Ocorrência de Pygorhynchus colombianus (Cooke, 1955) e Pseudholaster altiusculus (White, 1887) na Formação Riachuelo, bacia de Sergipe, Brasil (Cynthia Lara de Castro Manso & Wagner Souza-Lima);

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Cronoestratigrafia e correlação geológica da seção aflorante da Formação Calumbi, bacia de Sergipe, Brasil (Wagner Souza-Lima, Paulo Cesar Galm & Paulo Roberto Silva Santos);

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Pesquisas em andamento no Laboratório de Paleontologia da Universidade Federal de Sergipe (Maria Helena Zucon); Considerações geológicas e paleontológicas sobre a seção marinha aflorante da bacia de Camamu, Bahia, Brasil (Wagner Souza-Lima, Edilma de Jesus Andrade & Cynthia Lara de Castro Manso);

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Os fósseis no ensino de ciências: uma experiência metodológica no Colégio de Aplicação da Universidade Federal de Sergipe (Márcia Eliane Silva Carvalho & Maria Helena Zucon);

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Planícies de maré e exposição subaérea dos sedimentos siliciclásticos do Membro Angico da Formação Riachuelo, bacia de Sergipe, Brasil (Wagner Souza-Lima).

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Neste ano continuaram as atividades didáticas junto a estudantes do ensino médio e fundamental.

Em 2001 continuaremos empenhados na preservação do patrimônio paleontológico brasileiro, um grande desafio, mas com esperanças sempre renovadas.

Figura 3 – Pesquisadores e estudantes presentes na Paleo 2000 realizada em Aracaju (Foto: Reinaldo Santos).

Agradecimentos

Ao final de mais este ano de atividades, efetuamos nossos agradecimentos a todos que colaboraram conosco em 2000, certos de que a participação de cada um tem sido muito importante para que possamos alcançar nossos objetivos. A Fundação gostaria de efetuar um agradecimento especial à PETROBRAS/UN-SEAL pelo apoio recebido para a impressão do nosso informativo mensal, manifestando ainda nossa gratidão a Paulo Manuel Mendes de Mendonça, Sérgio Michelucci Rodrigues, Joaquim Machado Barreto Meneses Filho, Conceição Santana Pires Ferreira, Antônio Fernandes Gomes e José Maurício Lima pelo apoio na realização da Paleo 2000, que resultaram no pleno sucesso deste evento. Agradecemos a Cândida Carneiro C. Salvador (PETROBRAS) pelos livros doados à nossa biblioteca e ao apoio de Jorge Cariri Melo, Joaquim Braz da Penha Neto, Railton Vicente da Silva, Dario de Oliveira Neto, Valmir Matias dos Anjos e Antônio de Moura Fernandes (todos PETROBRAS). Somos imensamente gratos a Iolanda Fátima P. Ewerton pela dedicada atuação na divulgação da fundação. Agradecemos a Antônio Francisco Cisne, Guilherme Fonseca Mandarino, Afonso L. P. Carvalho e Erivanaldo Florêncio Xavier da Costa, da Companhia Vale do Rio Doce e a Paulo Fernando de Toledo Damasceno e Jacinto A. Carvalho Neto, da Cimento Sergipe S.A. (CIMESA) por permitir e acompanhar nossas visitas técnicas às minas das unidades de Sergipe, e a Décio Garcez Vieira Filho, da Companhia de Desenvolvimento Industrial e Recursos Minerais de Sergipe, por nos fornecer exemplares da edição mais recente do mapa geológico do Estado de Sergipe. A divulgação das atrações turísticas de Sergipe aos pesquisadores que têm visitado a bacia contou com o apoio da Empresa Sergipana de Turismo.

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