Neste número:

  1. Os corais e demais cnidários
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Ano 3

Número 25

Janeiro 2001

Uma colônia de corais escleractíneos sobre um gastrópodo, Albiano inferior da bacia de Sergipe (cerca de 110 milhões de anos; acervo Phoenix). Os fósseis da bacia de Sergipe-Alagoas

Os corais e demais cnidários

No terceiro ano de publicação, continuamos a série sobre os grupos fósseis da bacia de Sergipe-Alagoas. Nestes dois anos, nosso informativo tem sido distribuído às principais instituições de ensino e pesquisa geológico-paleontológica do Brasil, e para algumas instituições do exterior. Com o lançamento de nossa home page (www.fundphoenix.cjb.net), ampliamos a sua divulgação, tornando-o acessível on-line para um público ainda maior.

Os corais e demais cnidários

Antonio Carlos Sequeira Fernandes *

* Museu Nacional/UFRJ, Dept° de Geologia e Paleontologia, Rio de Janeiro, Brasil (e-mail: fernande@acd.ufrj.br)

Os cnidários representam os metazoários verdadeiros mais simples do mundo animal. Como exemplos recentes incluem-se as águas-vivas, cujos corpos não contêm partes mineralizadas, e os corais, os quais secretam um esqueleto calcário.

O termo coral em geral refere-se aos cnidários com esqueletos compostos por carbonato de cálcio. As formas desprovidas de esqueleto não são consideradas corais, apesar de pertencerem à mesma classe. Também são incluídos sob este termo os hidrozoários que secretam esqueletos, como os mileporinos e estilasterinos. Corais verdadeiros, entretanto, são principalmente os representantes das ordens Tabulata e Rugosa (paleozóicos), e Scleractinia (mesozóico-cenozóicos).

Os cnidários são organismos exclusivamente aquáticos e predominantemente marinhos, com formas sésseis (os pólipos) ou livre-natantes (as medusas). Os pólipos podem ser solitários ou coloniais, sempre fixos ao substrato pela base e com uma abertura (boca) na porção superior. As formas medusóides assemelham-se a um guarda-chuva, com os tentáculos dispostos ao longo da margem. A boca, situada na região inferior, pode apresentar prolongamentos conhecidos como braços orais. Alguns cnidários, como os corais, existem somente como pólipos; a maioria, contudo, é polimórfica, possuindo ciclos vitais com alternância de gerações polipóides e medusóides. Os representantes mais antigos do grupo, medusóides, datam do final do Pré-Cambriano. Formas medusóides também são registradas no Fanerozóico mas, por serem desprovidas de esqueleto, são raras como fósseis. Cnidários portadores de esqueleto calcário, como os corais, constituem-se nos fósseis mais importantes deste grupo, sendo comuns nas rochas sedimentares do Ordoviciano ao Holoceno.

A estrutura do corpo dos cnidários é relativamente simples (Figura 1), com as células organizadas em duas camadas, a ectoderme e a endoderme. Entre elas existe uma camada gelatinosa (mesogléia), muito reduzida nos pólipos e mais desenvolvida nas medusas. As paredes do corpo englobam uma cavidade central (celenteron) que apresenta-se dividida por partições radiais (mesentérios), que auxiliam na digestão e absorção do alimento. A boca é utilizada tanto para a alimentação como para a eliminação das larvas e dos produtos não digeridos. Ao seu redor dispõe-se uma coroa de tentáculos retráteis, portadores de células especializadas (os cnidoblastos ou nematocistos). Estas células, presentes na maioria dos cnidários, são uma das principais características deste grupo e a razão da designação do filo.

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Figura 1 – Diagrama esquemático de um pólipo de coral escleractíneo1.

São reconhecidas três classes de cnidários: Hydrozoa, Scyphozoa e Anthozoa. Os corais pertencem à classe Anthozoa, que compreende as formas em que há apenas a fase pólipo, sem a ocorrência de medusas. São organismos solitários ou coloniais, bentônicos, sésseis e exclusivamente marinhos. O esqueleto dos corais é externo, formado por uma parede (epiteca) que encerra e une-se aos septos (placas verticais dispostas radialmente) e às tabulae e dissepimentos (elementos transversais ou horizontais). Por vezes, os septos projetam-se para fora da epiteca, constituindo estruturas conhecidas como costae. O esqueleto unitário, seja dos pólipos isolados ou de uma colônia, denomina-se corallum, e os esqueletos dos indivíduos de uma colônia são chamados de coralitos. A disposição dos coralitos nas colônias é variada, podendo estar unidos ou separados. Entre eles pode formar-se um esqueleto de conexão denominado cenósteo.

Os corais tabulados, exclusivos do Paleozóico, incluíam formas coloniais onde os septos foram reduzidos ou ausentes, mas portadores de tabulae. Distribuíram-se do Ordoviciano inferior ao Permiano, sendo comuns nas rochas do Ordoviciano médio ao Devoniano, quando participaram ativamente na formação de construções recifais.

Os corais rugosos, ou tetracorais, caracterizaram-se pela inserção dos septos em quatro posições. Foram os corais de maior variação de formas do Paleozóico, distribuindo-se do Ordoviciano médio ao Permiano superior. As formas solitárias variavam desde poucos milímetros até quase 1m de comprimento e 15cm de diâmetro; as coloniais chegavam a atingir 4m de diâmetro. Entre suas principais características, destacam-se as rugosidades transversais externas de crescimento, presentes na epiteca e visíveis nas formas solitárias, motivo da designação do grupo.

Os corais escleractíneos são organismos solitários ou coloniais que incluem todos os corais fósseis verdadeiros pós-paleozóicos. São conhecidos como hexacorais devido à simetria hexâmera da inserção dos septos e mesentérios. Distribuem-se desde o Triássico médio. São abundantes nos mares atuais, nos recifes litorâneos e em outros ambientes marinhos, inclusive de águas profundas. Corais escleractíneos são encontrados em rochas cretáceas brasileiras, como nas formações Jandaíra (bacia Potiguar), Gramame (bacia de Pernambuco-Paraíba) e Riachuelo e Cotinguiba (bacia de Sergipe).

Todos os corais recentes vivem em águas de boa circulação que lhes supre de nutrientes e oxigênio; além disso não toleram grandes influxos de sedimentos. São divididos em dois grupos ecológicos: os hermatípicos, que possuem algas simbiontes (zooxantelas), e os não-herma-típicos, que não contêm estas algas. Os corais hermatípicos restringem-se às águas tropicais rasas, em profundidades inferiores a 20m e com temperatura entre 25ºC a 29ºC, em decorrência das necessidades fotossintéticas das algas zooxantelas. Entretanto, algumas formas são encontradas em profundidades de até 90m, e em temperaturas tão frias quanto 16ºC. Constituem-se nos organismos mais importantes ou mesmo predominantes nos ambientes recifais recentes. Os corais não-herma-típicos podem ocorrer associados aos corais recifais, mas não estão sujeitos às mesmas restrições ambientais. São encontrados em profundidades de até 6000m, com temperaturas entre 1ºC e 28ºC, distribuindo-se em todos os mares e oceanos com salinidade normal.

1Bayer, F. M. et al. 1956. Coelenterata. In R. C. Moore (Ed.): Treatise on Invertebrate Paleontology, Part F, Coelenterata. Geological Society of America, University of Kansas, pp. F1-F498. Lawrence, Kansas.

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