Neste número:

1. Os anelídeos

Ano 3

Número 26

Fevereiro 2001

Glomerula gordialis, um poliqueta secretor de tubos calcários do Campaniano superior da bacia de Sergipe (cerca de 75 milhões de anos; acervo Phoenix).

Os fósseis da bacia de Sergipe-Alagoas

Os anelídeos

Os anelídeos

Wagner Souza-Lima *

* Fundação Paleontológica Phoenix, Aracaju, Sergipe, Brasil (e-mail: wagnerl@hotmail.com)

Os anelídeos são os invertebrados vermiformes que atingiram as maiores dimensões e diferenciações estruturais. O filo Annelida compreende todos os vermes segmentados que habitam tanto os ambientes terrestres como os aquosos, marinhos ou de água doce. A principal característica do filo é a divisão do corpo em segmentos, arranjados em uma série linear. Entretanto, nem a cabeça, representada pelo prostômio, nem o pigídio, onde se situa o ânus, são segmentados. O tamanho dos anelídeos é muito variado, entre 0,5mm a mais de 3m de comprimento.

A divisão do corpo em segmentos é denominada “metamerismo”; nos anelídeos é importante também a segmentação do celoma (ou cavidade corporal) por septos transversais. A movimentação do animal ocorre pela contração dos músculos da parede do corpo que exerce pressão sobre o fluido celômico, alterando a forma do corpo. Como o celoma é compartimentado, a contração ou expansão do fluido celômico ocorre diferencialmente em cada segmento. Deste modo é gerada uma onda de contrações peristálticas que permite que o animal se movimente sobre ou no interior do substrato onde vive.

Os anelídeos constituem um filo muito numeroso, com mais de 8000 espécies distribuídas em três classes: Polychaeta, Oligochaeta e Hirudinea2. As evidências mais antigas de anelídeos no registro geológico são encontradas em rochas proterozóicas, provavelmente de origem marinha, estando representados por traços derivados de sua locomoção sobre o substrato.

 

Figura 1 – Diagrama esquemático de um serpulídeo (anelídeo poliqueta) secretor de tubos calcários, que vive fixo a um substrato consolidado, exibindo os radíolos1.

 

A classe Polychaeta engloba a maior parte das formas marinhas atuais; organismos deste grupo vivem também em águas salobras ou doces. Os poliquetas são caracterizados pelo corpo segmentado onde cada segmento possui uma série de cerdas denominadas “quetas”. Apesar da morfologia exótica (e às vezes repugnante), alguns poliquetas são extraordinariamente bonitos e coloridos. Este grupo possui uma grande diversidade adaptativa, podendo viver sobre o substrato (consolidado ou não), rastejando, enterrados no substrato, em escavações, ou habitando tubos secretados para este fim. Poliquetas rastejantes possuem numerosas estruturas sensoriais e apêndices laterais bem desenvolvidos, os parapódios. Muitos poliquetas possuem adaptação para escavação. Alguns deles constroem galerias cujas paredes são revestidas por muco. Neste último grupo, os parapódios são reduzidos e em parte transformados em feições semelhantes a anzóis. Estas escavações servem como estruturas de proteção ou como esconderijo para capturar suas presas. A escavação pode apresentar forma variável e ser revestida por grãos de areia, bioclastos diversos ou mesmo material orgânico secretado pelo animal, cimentados por muco (Figura 2). Neste grupo destacam-se os Serpulidae, poliquetas que secretam tubos calcários que são fixados às rochas, conchas ou mesmo algas, sendo muito comuns no registro fóssil. Alguns poliquetas são ainda perfuradores de conchas calcárias. Em geral estas escavações e tubos são as únicas estruturas encontradas como fósseis, visto que as partes moles raramente são preservadas.

 

Figura 2Terebella sp., uma escavação de poliqueta revestida por bioclastos, Formação Calumbi, Campaniano superior da bacia de Sergipe (exemplar FPH-323-I, acervo Phoenix).

A classe Oligochaeta (= poucas setae) engloba os principais anelídeos terrestres, embora tenham também representantes de água doce e marinhos. Diferenciam-se dos poliquetas pela ausência de parapódios. A grande maioria, contudo, possui setae, estruturas filamentosas de morfologia variável, que surgem em grupos ou feixes em cada segmento, sendo porém menos numerosas que nos poliquetas. Todos os oligoquetas terrestres são escavadores. Os oligoquetas aquáticos preferem as águas rasas; algumas espécies rastejam sob a vegetação submersa ou outros objetos; outras escavam substrato lamoso ou arenoso e alguns chegam a construir tubos. Seu registro fóssil é bem menos numeroso que o dos poliquetas.

A classe Hirudina possui representantes marinhos, terrestres e de água doce. São vulgarmente chamados de sanguessugas, embora nem todos sejam parasíticos. São os menores anelídeos, com tamanho entre 1 e 30cm. Nestes organismos ambas extremidades foram modificadas para estruturas de sucção. O metamerismo é muito reduzido e não possuem parapódios ou setae. A grande maioria vive em corpos de água doce, de baixa energia. Não são conhecidos no registro fóssil.

Uma estrutura dos poliquetas muito resistente e bem preservada como fósseis, principalmente do Paleozóico, são os escolecodontes. São peças mandibulares submilimétricas (entre 50mm e alguns milímetros), encontradas em geral desarticuladas. Sua classificação normalmente procura relacioná-los a estruturas encontradas nos anelídeos atuais.

Na bacia de Sergipe, os anelídeos fósseis constituem um grupo ainda pouco estudado, embora possam ser bons indicadores paleoecológicos. Se não freqüentes, poliquetas são às vezes encontrados abundantemente em alguns intervalos das seqüências marinhas, principalmente em rochas do Albiano inferior (Fm. Riachuelo)3, Coniaciano (Fm. Cotinguiba)4 e Campaniano superior (Fm. Calumbi). As formas mais comuns são as secretoras de tubos calcários (p. ex., Serpula, Diploconcha e Hamulus), entretanto formas escavadoras (p. ex., Terebella, ocorrem de forma localizada).

1Barnes, R. D. & Ruppert, E. E. 1996. Zoologia dos Invertebrados. São Paulo, Ed. Roca, 6a ed., 1179 pp.

2Howell, B. F. 1962 - Worms. In Moore, R. C. (Ed.), Treatise on Invertebrate Paleontology, Part W, Miscellanea: Conodonts, Conoidal Shells of Uncertain Affinities, Worms, Trace Fossils, & Problematica. Geological Society of America, University of Kansas, pp. W144-W177. Lawrence, Kansas.

3Beurlen, K. 1965a - Serpulidae na Formação Riachuelo (Cretáceo, Estado de Sergipe). Anais da Academia Brasileira de Ciências, 37(2): 263-266.

4Muniz, G. da C. B. & Zucon, M. H. 1981 - Sobre a presença do anelídeo poliqueta Senoniano-Daniano Glomerula gordialis na Formação Cotinguiba, Estado de Sergipe. Simpósio de Geologia do Nordeste, 10, Recife, Novembro 1981, Atas, pp. 265-267.

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