Neste número:

1.Os crustáceos: decápodes

Ano 3

Número 27

Março 2001

Os fósseis da bacia de Sergipe-Alagoas

Os crustáceos: decápodes

 

Os crustáceos: decápodes

Vladimir de Araújo Távora* & Wagner Souza-Lima #

* Departamento de Geologia, CG/UFPa, Belém, Pará, Brasil (e-mail: vtavora@terra.com.br)

# Fundação Paleontológica Phoenix, Aracaju, Sergipe, Brasil (e-mail: wagnerl@hotmail.com)

Os artrópodes são invertebrados cujas principais características são a presença de uma carapaça ou exoesqueleto calcário ou quitinoso e apêndices articulados, que permitem a locomoção e captura de alimentos. Como exemplos de artrópodes temos os insetos, aracnídeos e crustáceos, além dos extintos trilobitas e euripterídeos. Representam talvez o grupo de invertebrados mais importante e de maior diversidade e representatividade numérica atualmente1. Embora seja certamente um filo bem melhor representado, até o momento apenas fósseis do subfilo Crustacea foram registrados na bacia de Sergipe-Alagoas.

Crustáceos são artrópodes mandibulados com corpo bilateralmente simétrico, que se diferenciam dos demais artrópodes pela presença de dois pares de apêndices transformados em antenas, um par de mandíbulas e dois pares de maxilas. Dominantemente aquáticos, constituem um dos mais conhecidos grupos animais graças a sua importância econômica, sendo representados pelos camarões, caranguejos, siris e lagostas. No ambiente marinho ocorrem desde a região litorânea até a zona abissal, com formas planctônicas, nectônicas e bentônicas, sésseis e vágeis. A extrema adaptabilidade ecológica do grupo está refletida nas estruturas morfológicas, que variam de acordo com o seu hábito e hábitat. Em tamanho variam desde 0,25mm (copépodes e ostracodes) até 3,5m (decápodes). Um atributo bem marcado no grupo é o dimorfismo sexual. Os novos indivíduos são gerados por reprodução singâmica (em sua maioria) ou partenogenética (fêmeas geram novas fêmeas sem intervenção de machos). No entanto, algumas espécies reproduzem-se das duas maneiras, dependendo da latitude geográfica em que vivem2.

De forma simplificada, os crustáceos são subdivididos em entomostráceos e malacostráceos. Os primeiros perfazem uma heterogênea assembléia de grupos de pequeno tamanho (copépodes, ostracodes, isópodes, branquiópodes e cirrípedes), enquanto os últimos constituem as formas mais evoluídas (caranguejos, siris, camarões e lagostas), com tamanho médio a grande. Dotados de esqueleto comumente calcário e ocorrência registrada ao longo de todo o Fanerozóico, estão descritas até hoje pouco mais de quarenta mil espécies, onde cerca de 75% deste total são de malacostráceos. Esse número é pequeno, se comparado com outros grupos de artrópodes, como os insetos, que contam com quase noventa mil espécies. Essa discrepância resulta da grande complexidade morfoanatômica dos crustáceos, que se traduz nos numerosos e divergentes arranjos sistemáticos, bem como pelo pequeno número de especialistas no mundo, de modo que os crustáceos são um grupo sistemático apenas razoavelmente estudado. Por ser um grupo extremamente numeroso e diversificado, neste número falaremos apenas sobre os crustáceos decápodes. Os ostracodes e conchostráceos serão temas dos próximos números.

Decápodes são malacostráceos com alto grau de organização e representam os crustáceos de maior tamanho já registrados. Seu corpo é constituído por um cefalotórax (tórax e cabeça fundidos) com cinco pares de apêndices e abdômen (Figura 1). Todos os apêndices são adaptados à locomoção, com exceção do primeiro par, denominado quela, utilizados para a alimentação. O abdômen, bastante reduzido em tamanho e calcificação, constitui um importante aspecto evolutivo, já que sua simplificação e redução estão associadas com a conquista do interior do substrato.

Os decápodes ocupam nichos ecológicos aquáticos diversificados, ocorrendo em ambiente marinho, salobro e de água doce; alguns grupos estão adaptados a viver em terra firme. Eles desenvolveram extremas adaptações para executar funções especializadas (locomoção, respiração, reprodução e proteção) nestes diferentes hábitats. Alguns são perfuradores, comensais, parasitas, simbióticos, enquanto outros podem viver até sobre árvores. Caranguejos verdadeiros superam em número todos os outros decápodes reunidos.

Figura 1 – Diagrama esquemático de um crustáceo decápode em vista dorsal3.

A excepcional variabilidade de formas acarreta em grandes dificuldades para a classificação sistemática. Também, a fossilização dos decápodes, com o predomínio de restos fragmentados sobre carapaças inteiras, colabora para a complexidade no procedimento de arranjos sistemáticos claros e seguramente embasados3.

Os decápodes possuem ocorrência registrada desde o Permo-Triássico, com formas aquáticas e terrestres. A primeira expansão sistemática e geográfica se deu no Jurássico, quando o grupo adaptou-se a viver em ambientes marinhos recifais e de água doce. Somente a partir do Paleoceno adquiriram o aspecto moderno, avançando em número e diversificação, sobretudo em áreas de clima quente. A utilização de decápodes para datação de camadas é ainda limitada, embora algumas espécies cretáceas e eoterciárias sejam consideradas fósseis guias por alguns autores4.

As zonas litorâneas recentes são habitadas por muitos decápodes. Estes são também comuns em depósitos neocretáceos e terciários típicos de águas rasas. As formas que mais comumente se preservam são aquelas que vivem em substratos moles ou ambientes recifais4.

Na bacia de Sergipe-Alagoas, os decápodes são um importante componente da macrofauna5, ocorrendo em diversos estratos distribuídos provavelmente do Aptiano superior ao Campaniano superior. Entretanto, devido à fragilidade de sua carapaça e a alta energia dos ambientes deposicionais aos quais estão normalmente associados, sua preservação em geral não é boa, sendo mais comum a preservação de quela isoladas e fragmentos da carapaça. Em alguns sedimentos depositados em águas mais calmas, entretanto, podem ser abundantes e bem preservados. Embora sejam bons indicadores de condições litorâneas, ocorrem também em rochas relacionadas a águas profundas, como observado em alguns níveis da Formação Cotinguiba, estando normalmente fragmentados, por causa do transporte a que foram submetidos.

1Clarkson, E. N. K. 1986. Artrópodos. In: Clarkson, E. N. K. (Ed.), Paleontología de invertebrados y su evolución, Editora Paraninfo S.A., Madrid, pp. 289-336.

2Moore, R. C. & McCormick, L. 1969. General features of Crustacea. In Moore, R. C. (Ed.): Treatise on Invertebrate Paleontology, Part R, Arthropoda 4, Geological Society of America, University of Kansas, v.1, p. R57- R120. Lawrence, Kansas.

3Rathbun, M. J. 1937. The oxystomatous and allied crabs of America. United States National Museum Bulletin, 166: 1-278.

4Glaessner, M. F. 1969. Decapoda. In Moore, R. C. (Ed.): Treatise on Invertebrate Paleontology, Part R, Arthropoda 4, Geological Society of America, University of Kansas, v.2, pp. R399- R533. Lawrence, Kansas.

5Beurlen, K. 1965. Crustáceos decápodes na Formação Riachuelo (Cretáceo-Sergipe). Anais da Academia Brasileira de Ciências, 37(2): 267-272.

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