Neste número:

Os crustáceos: ostracodes

Ano 3

Número 28

Abril 2001

Os fósseis da bacia de Sergipe-Alagoas

Os crustáceos: ostracodes

Os crustáceos: ostracodes

Paulo da Silva Milhomem*, Marta Claudia Viviers# & Paulo César Galm$

* PETROBRAS/CENPES, Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil (e-mail: milhomem@cenpes.petrobras.com.br)

# PETROBRAS/CENPES, Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil (e-mail: claudia@cenpes.petrobras.com.br)

$Fundação Paleontológica Phoenix/PETROBRAS UN-SEAL, Aracaju, Sergipe, Brasil (e-mail: pcgalm@petrobras.com.br)

Os ostracodes são crustáceos de pequeno tamanho (1mm em média), cujo corpo, lateralmente comprimido, é envolvido por uma carapaça calcária bivalve, de aspecto geral subovalado a reniforme. Embora a natureza e a distribuição dos apêndices possam sugerir, não há traços de uma segmentação verdadeira entre as regiões anterior (cefálica) e posterior (torácica) do organismo (Figura 1).

O corpo de um ostracode é recoberto por uma cutícula contínua, secretada pela epiderme. Inicialmente flexível, esta cutícula torna-se gradualmente enrijecida face à mineralização. Certas regiões (juntas) permanecem, porém, flexíveis, permitindo a movimentação do organismo.

 

Figura 1 - Vista lateral de Cyprideis australiensis, ilustrando a anatomia das partes moles de um ostracode recente1.

A carapaça diferencia-se em uma lamela externa, totalmente calcificada em espécies modernas, e outra interna, variavelmente mineralizada. A complexidade das estruturas identificadas na lamela interna aumenta com o grau de calcificação, acentuando o encaixe das valvas nas margens anterior, posterior e ventral. As valvas se articulam na região dorsal, através de uma charneira (Figura 2). De modo geral, esta charneira envolve modificações das lamelas interna e externa, na constituição de uma associação de estruturas de complexidade variável.

Figura 2 - Estrutura interna da valva direita de um ostracode marinho do Cretáceo Superior da bacia do Ceará.

A superfície interna da lamela externa apresenta uma série de marcas resultantes da adesão das partes moles à carapaça. Destas, assumem maior importância as cicatrizes musculares, particularmente as centrais ou adutoras (Figura 3), cujo número e arranjo possuem valor taxonômico.

Orifícios com morfologia variável são identificados na superfície valvar, correspondendo à abertura de condutos aos quais se associam estruturas sensoriais (cerdas). Estes condutos (porocanais) são classificados como marginais ou radiais, quando distribuem-se na zona de fusão entre as lamelas interna e externa (zona marginal), e normais ou laterais, se atravessam perpendicularmente a lamela externa (Figura 2).

Figura 3 - Exemplo de marcas musculares adutoras em um ostracode marinho do Cretaceo Superior da bacia Potiguar.

A superfície da carapaça pode apresentar uma série de feições ornamentais, a exemplo de costelas, nódulos, espinhos, pontuações e reticulação. Embora a natureza e a distribuição destas feições possuam importância taxonômica, sua expressão pode variar como função de mudanças ambientais.

À semelhança dos demais artrópodes, os ostracodes apresentam um crescimento descontínuo. Não há, contudo, incrementos gradativos, simultâneos ao desenvolvimento corporal. A carapaça calcária que os envolve deve ser trocada sucessivas vezes (ecdise), ao longo de toda a sua evolução ontogenética, até que os organismos atinjam a maturidade.

Critérios relacionados ao estudo das partes moles, a exemplo do número e morfologia dos apêndices, fundamentam a classificação de formas recentes. Em estudos paleontológicos, no entanto, a preservação de estruturas orgânicas é excepcional, de modo que variações na morfologia da carapaça orientam os estudos taxonômicos.

Os ostracodes surgiram no Cambriano e, durante sua evolução, alcançaram uma expressiva irradiação ecológica, podendo ser encontrados na grande maioria dos ambientes aquáticos, abrangendo desde ecossistemas continentais até marinhos profundos. Em sua maior parte bentônicos, estes microcrustáceos são reconhecidamente sensíveis a variações nas características físico-químicas do meio aquoso, o que os torna excelentes indicadores paleoambientais. Estudos sedimentológicos e bioestratigráficos integrados, realizados em sedimentos flúvio-deltaicos e lacustres do Cretáceo Inferior da bacia de Sergipe-Alagoas, são um exemplo do controle faciológico exercido sobre a distribuição dos ostracodes2.

A aplicação do grupo no estudo de bacias sedimentares tem se baseado principalmente em seu elevado potencial bioestratigráfico, particularmente útil em seções nas quais não ocorrem microfósseis calcários pelágicos. Em bacias brasileiras, os ostracodes têm sido tradicionalmente utilizados no zoneamento de seções não-marinhas. A bacia do Recôncavo, em especial, caracteriza-se pelo registro mais expressivo de ostracodes fósseis no Brasil, face à diversidade, abundância e preservação da microfauna. O conjunto de 11 biozonas e 26 subzonas que compõem o arcabouço biocronoestratigráfico do Neojurássico(?)-Eocretáceo das bacias da margem continental fundamenta-se quase que essencialmente na distribuição estratigráfica dos ostracodes descritos nesta bacia3. Uma série de espécies são igualmente recuperadas de bacias da costa ocidental africana, em sucessão estratigráfica correlacionável àquela de seqüências brasileiras, constituindo uma das evidências do processo de deriva continental.

Estudos desenvolvidos em seções cretáceas das bacias Potiguar e de Sergipe têm também demonstrado o potencial bioestratigráfico dos ostracodes marinhos4. Da mesma forma, ostracodes de seções cenozóicas têm sido objeto de estudos taxonômicos e paleoecológicos5, 6.

1De Deckker, P.; Colin, J. -P. & Peypouquet, J. -P. (Eds.) 1988. Ostracoda in the Earth sciences, Elsevier, Amsterdam, 302 pp.

2Cruz, F. E. G. & Galm, P. C. 1996. Correlação das fácies sedimentares e formas de ostracodes não-marinhos dos andares Aratu e Eoburacica em sedimentos deltaicos da Formação Barra de Itiúba, bacia de Sergipe-Alagoas. Geociências(São Paulo), 15(1): 209-222.

3Viana, C. F.; Gama Jr., E. G.; Simões, I. A.; Moura, J. A.; Fonseca, J. R. & Alves, R. J. 1971. Revisão estratigráfica da Bacia Recôncavo/Tucano. Boletim Técnico da Petrobrás, 14(3/4): 157-192.

4Viviers, M. C.; Koutsoukos, E. A. M.; Silva-Telles Jr., A. C. & Bengtson, P. 2000. Stratigraphy and biogeographic affinities of the late Aptian-Campanian ostracods of the Potiguar and Sergipe basins in Northeastern Brazil. Cretaceous Research, 21: 407-455.

5Coimbra, J. C. & Ornellas, L. P. 1989. Distribution and ecology of sub-Recent Orionininae (Ostracoda) in the Brazilian continental shelf. Revista Brasileira de Geociências, 19(2): 177-186.

6Coimbra, J. C.; Sanguinetti, Y. & Bitten-court-Calcagno, V. 1995. Taxonomy and distribution patterns of Recent species of Callistocythere Ruggieri, 1953 (Ostracoda) from the Brazilian continental shelf. Revista Espanõla de Micropaleontologia, 27(3): 117-136.

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