Neste número:

1.       Os palinomorfos: esporos

Ano 3

Número 30

Junho 2001

Os fósseis da bacia de Sergipe-Alagoas

Os palinomorfos: esporos

Os palinomorfos: esporos

Elizabete Pedrão* & Ilma Maria Rodrigues Barrilari#

* PETROBRAS/CENPES, Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil (e-mail: elizabete@cenpes.petrobras.com.br)

# PETROBRAS/CENPES, Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil (e-mail: ilma@cenpes.petrobras.com.br)

O termo palinologia foi criado em 19441 para designar os estudos sobre a morfologia, dispersão e outras aplicações referentes aos grãos de pólen e esporos. Este termo é derivado do verbo grego palýneim, que significa espalhar farinha ou pó, acrescido do sufixo lógos (= estudo)2.

Atualmente utiliza-se o termo palinologia para os estudos dos microfósseis de natureza orgânica, chamados de palinomorfos. Estes são encontrados em abundância em rochas sedimentares sílticas e em menor freqüência em rochas arenosas e calcárias. São recuperados após um intenso tratamento com ácidos dessas rochas. Entre os palinomorfos encontram-se grãos de pólen, esporos, acritarcos, prasinófitas, dinoflagelados, quitinozoários, escolecodontes, conchostráceos, palinoforaminíferos, além de partes de vegetais. Neste último grupo estão os fragmentos de madeiras (traqueídos e fibras), cutículas e tecidos de algas, sendo tratados sob o termo matéria orgânica particulada3. Os palinomorfos são encontrados em quase toda a coluna geológica, desde o Pré-Cambriano até o Recente e são preservados em diferentes ambientes deposicionais.

Os principais fatores que tornaram a palinologia um instrumento importante em áreas multidisciplinares são: abundância, tamanho, resistência dos palinomorfos a ataques ácidos e a variabilidade morfológica das formas. Na geologia, a palinologia é extremamente valiosa para a obtenção de datações relativas através da bioestratigrafia, e permite estabelecer a paleogeografia, determinar ambientes deposicionais e inferir condições paleoclimáticas.

O esporo (do grego spora = semente) é um termo geral utilizado para unidades reprodutivas sexuais e assexuais, unicelulares e microscópicas (entre 20 e 100mm) das plantas criptógamas (plantas que possuem os órgãos sexuais ocultos como nas plantas inferiores e fungos)4.

Os esporos são produzidos em estruturas especiais denominadas de esporângios, que assumem formas, agrupamentos e posições diferentes dentro dos grupos vegetais5. Os esporângios, quando maduros, liberam os esporos e estes, quando em contato com a água, germinam. Os esporos são formados a partir de uma célula mãe, que sofre o processo de meiose, dando origem a quatro células-filhas. Este conjunto de células é denominado de tétrade e podem apresentar diferentes arranjos, sendo os mais comuns tetraédricos e tetragonais2.

Figura 1 - Diagrama esquemático de um esporo em vista lateral2.

Na caracterização morfológica dos esporos é de suma importância a identificação da cicatriz ou marca de deiscência, localizadas nas faces proximais dos mesmos, indicando o ponto de união com os outros grãos na tétrade (Figura 1). As cicatrizes apresentam-se sob duas formas: monolete e trilete (Figura 2). Existem também esporos que não possuem cicatriz, sendo chamados de aletes. Entre os elementos utilizados na caracterização morfológica dos esporos estão: a determinação de polaridade, simetria, contorno, tipos de lados e ângulos, estrutura e ornamentação (verrugas, gemas, fovéolas, báculas, retículos entre outros; Figura 3)2.

Figura 2 - Diagrama esquemático de esporos em vista polar2.

Na bacia de Sergipe-Alagoas, a seção paleozóica não é muito rica em esporos, tendo sido reconhecidos apenas exemplares dos gêneros Endosporites, Cyclospora e Calamospora. Essas formas inicialmente permitiram atribuir idade neocarbonífera para a seção onde ocorrem, a qual não foi confirmada posteriormente. A idade permiana foi atribuída com base no reconhecimento de grãos de pólen sacados6. As seções cretácea e terciária apresentam-se com alta diversidade e abundância em esporos. Entre os gêneros diagnosticados estão Ariadnaesporites, Cardioangulina, Cicatricosisporites, Cingulatisporites, Crybelosporites, Densoisporites, Gleicheniidites, Klukisporites, Leptolepdites, Paludites, Matonisporites, Raistrickia e Verrucosporites7 .

Os esporos são também utilizados em caracterizações paleoambientais8. São mais abundantes nas associações palinológicas representativas de ambientes mais próximos de áreas costeiras. A relação desses com outros palinomorfos, permite inferir condições climáticas como, por exemplo, variações de umidade.

Figura 3 - Esporos triletes ornamentados do Paleoceno superior da Formação Calumbi, bacia de Sergipe: a) verrugas/escabras; b) báculas/clavas.

1Hyde, H. A. & Williams, D. A. 1944. The right word. Pollen Analysis Circular, 8: 6.

2Traverse, A. 1988. Paleopalynology. Unwin Hyman, Boston, 600 pp.

3Tyson, R. V. 1995. Sedimentary organic matter. Organic facies and palynofacies. Chapman & Hall, London, 615 pp.

4Playford, G. & Dettman, M. E. 1996. Spores. In: Jansonius, J. & McGregor, D.C. (Eds.), Palynology: principles and applications. American Association of Stratigraphic Palynologists Foundation, vol.1, pp. 227-260.

5Stewart, W. N. 1985. Paleobotany and the evolution of plants. Cambridge University Press, London, 405 pp.

6Brito, I. M.; Quadros, L. P. & Cardoso, T. R. M. 1985. A idade das formações Batinga e Aracaré da Bacia de Sergipe-Alagoas. Anais da Academia Brasileira de Ciências, 57 (2): 209-215.

7Regali, M. S. P. & Silva Santos, P. R. 1999. Palinoestratigrafia e geocronologia dos sedimentos albo-aptianos das bacias de Sergipe e de Alagoas – Brasil. In: Dias-Brito, D.; Castro, J. C. de & Rohn, R. (Eds.), Boletim do 5º Simpósio sobre o Cretáceo do Brasil/1er Simposio sobre el Cretácico de América del Sur, Serra Negra, São Paulo, Brasil, 1999, pp. 411-419.

8Poumot, C. 1989. Palinological evidence for eustatic events in the tropical Neogene. Bulletim Centre Recherche Exploration-Production. Elf Aquitaine, 13: 437-453.

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