Neste número:

  1. Os palinomorfos: pólens

Ano 3

Número 31

Julho 2001

Retitricolporites quadrosi, um pólen do Terciário da Formação Calumbi, bacia de Sergipe-Alagoas. Os fósseis da bacia de Sergipe-Alagoas

Os palinomorfos: pólens

Os palinomorfos: pólens

Elizabete Pedrão* & Ilma Maria Rodrigues Barrilari#

* PETROBRAS/CENPES, Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil (e-mail: elizabete@cenpes.petrobras.com.br)

# PETROBRAS/CENPES, Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil (e-mail: ilma@cenpes.petrobras.com.br)

 

O termo pólen (do latim pollen = poeira fina) refere-se à uma unidade celular isolada, composta de um protoplasma bi- ou trinucleado e de uma parede celular, chamada esporoderma1. Os grãos de pólen são gerados no interior de estruturas especiais da flor (anteras e microesporângios), cujos órgãos estão adaptados à realização das funções sexuais das plantas superiores: angiospermas e gimnospermas2.

A antera é a porção terminal dilatada do estame, que corresponde à porção masculina (androceu) da flor da angiosperma (Figura 1). As células de revestimento ou tapeto, que compõem a camada mais interna da antera, são constituídas por um tecido nutritivo, que é absorvido durante a maturação dos grãos de pólen. Uma vez completada a fase de maturação ocorre o fenômeno de deiscência, que compreende o rompimento da parede da antera e a liberação dos grãos de pólen1. Nas gimnospermas, o grão de pólen é desenvolvido no interior dos microesporângios, que são sacos polínicos suportados por folhas carpelares dispostas ao redor de um eixo comum, conhecido como estróbilo masculino (pinha)3.

Figura 1 - Diagrama esquemático da organização de uma flor (mod. http://www.geo.anzona.edu).

A função dos grãos de pólen é transportar o gametófito masculino até o órgão reprodutor feminino (gineceu), onde ocorrerá a fertilização. Uma vez o pólen aderido ao estigma, ocorre o desenvolvimento do tubo polínico até completar a fecundação4.

A polinização corresponde ao processo de transporte do pólen liberto da antera até o estigma através de vários agentes como: vento (dispersão anemófila), insetos (dispersão entomófila), pássaros (dispersão ornitófila) e água (dispersão hidrófila)5.

Os tamanhos dos grãos de pólen variam de 20 a 200mm. Eles podem ser recuperados diretamente da antera ou, no caso de grãos fossilizados, a partir de rochas sedimentares como siltitos e folhelhos. Os registros mais antigos desses palinomorfos são do Paleozóico (300 Ma; Figura 2)6.

Figura 2 - Distribuição temporal das principais plantas produtoras de grãos de pólen 6.

Na geologia, os grãos de pólen são utilizados na diagnose de biozonas, possibilitando correlações entre bacias sedimentares. Através de estudos quantitativos são estabelecidos grupos paleoecológicos e afinidades botânicas, permitindo inferir condições paleoclimáticas.

A classificação dos pólens compreende diversos aspectos morfológicos5,7, sendo a base desses estudos a estratificação da esporoderma. A esporoderma pode ter duas camadas: a intina (interna), composta de celulose, que não se preserva nos fósseis, e a exina, constituída por esporopolenina, apresentando baixa solubilidade, boa elasticidade e alta resistência à degradação e a ataques ácidos.

As aberturas germinais são características importantes nos pólens, correspondendo usualmente às partes delgadas da exina, as quais, direta ou indiretamente, permitem a saída do conteúdo vivente (protoplasma) do pólen por ocasião da germinação. Os dois tipos básicos de aberturas são poro e colpo, e a combinação entre ambos resulta em uma abertura denominada de colporo (Figura 3).

Os poros são geralmente isodiamétricos. Os colpos são alongados, com formato de barco, e suas extremidades são geralmente agudas7. O número, posição e distribuição das aberturas são variados, permitindo uma variada classificação.

As aberturas germinais são utilizadas principalmente nos estudos das angiospermas. Entre os grupos polínicos das gimnospermas estão os pólens sacados, que são classificados em função da abertura (colpo), ornamentação do corpo central (lisos, reticulados, escabrados ou estriados) e inserção dos sacos (monossacados, dissacados e trissacados).

Figura 3 - Exemplos de classes de pólen5.

A orientação do grão em relação aos eixos polar e de rotação é importante para a classificação, pois em geral, podem ser reconhecidos como um elipsóide de rotação regular. Os grupos básicos definidos são oblados, prolados e esféricos.

Os grãos de pólen podem ter ornamentações (escabras, gemas, clavas, verrugas, espinhos, rugulas, estrias, retículos entre outros) que se localizam acima da exina. Os tipos sem ornamentação são chamados de lisos ou psilados7.

Praticamente em quase toda coluna sedimentar da bacia de Sergipe-Alagoas ocorrem grãos de pólen. Na seção paleozóica foram registrados grãos de pólen bissacados estriados e lisos, que permitiram atribuir idade eopermiana. Nas seções cretácea e cenozóica, os grãos de pólen constituem um dos grupos de palinomorfos mais importante para as divisões bioestratigráficas dessas bacias (Figura 4).

Figura 4 - Exemplos de pólens do Paleoceno da Formação Calumbi. A) monocolpado; b) tricolpado; c) triporado.

1Dahl, A. O. 1969. Wall structure and composition of pollen and spores. In Tschudy, R. H. & Scott, R. A. (eds.), Aspects of palynology, pp.: 35-48.

2Coutinho, L. M. 1984. Botânica. Editora Cultrix, São Paulo, 307 pp.

3Ferri, M. G. 1986. Botânica – Morfologia externa das plantas (organografia). Nobel, São Paulo, 149 pp.

4Tschudy, R. H. 1969. The plant kingdon and its palynological representation. In Tschudy, R. H. & Scott, R. A. (eds.), Aspects of palynology, pp.: 5-34.

5Faegri, K. & Iversen, J. 1975. Textbook of pollen analysis. Munksgaard, Copenhagen, 295 pp.

6Stewart, W. N. 1985. Paleobotany and the evolution of plants. Cambridge University Press, London, 405 pp.

7Erdtman, G. 1952. Pollen morphology and plant taxonomy: angiosperms – an introduction to palynology, I; Almqvist and Wiksell, Stockholm, 539 pp.

Anterior Acima Próximo

Anterior ] Acima ] Próximo ]