Neste número:

  1.  Algas e construções algais

Ano 3

Número 32

Agosto 2001

 

Bioconstrução de algas solenoporáceas do Albiano médio da Formação Riachuelo, bacia de Sergipe.

Os fósseis da bacia de Sergipe-Alagoas

Algas e construções algais

Algas e construções algais

Wagner Souza-Lima*

* Fundação Paleontológica Phoenix, Aracaju, Sergipe, Brasil (e-mail: wagnerl@hotmail.com)

O termo alga é utilizado genericamente para um grupo eucariôntico complexo e polêmico, constituído por sete ou mais divisões, com diferentes caminhos evolutivos. A grande importância deste grupo no registro fóssil reside nas grandes construções algais conhecidas como estromatólitos, geradas pela precipitação ou aprisionamento do carbonato de cálcio, bem como na sua contribuição para a geração de hidrocarbonetos. Neste mesmo grupo, as algas carófitas (Charophycaea) possuem um abundante registro fóssil desde o Devoniano, embora ainda não tenham sido identificadas na bacia de Sergipe-Alagoas.

O termo estromatólito (do grego strôma, "o que cobre" ou "tapete", e líthos, pedra) foi utilizado originalmente para caracterizar camadas calcárias constituídas por finas estruturas laminadas mais ou menos planas, encontradas em rochas do Triássico do norte da Alemanha (Buntsandstein)1. Uma das definições mais aceitas atualmente caracteriza os estromatólitos como estruturas organo-sedimentares produzidas pelo aprisionamento, retenção e/ou precipitação de sedimentos resultante do crescimento e da atividade metabólica de microorganismos, principalmente cianofíceas (algas verdes-azuis)2. Diversos outros microorganismos secretores de mucilagem, associados em comunidades construtoras de "tapetes" orgânicos (principalmente procariotas fotoautróficos filamentosos) podem também originar os estromatólitos.

Vários termos foram também propostos para especificar os estromatólitos. O termo trombólito3 designa estromatólitos criptoalgais que não apresentam um arcabouço laminado distinto, mas de aspecto "coagulado". A denominação mais genérica de microbialitos4 foi proposta para referir-se a qualquer depósito organo-sedimentar formado pela interação entre comunidades microbiais bentônicas e sedimentos químicos ou detríticos, englobando neste caso tanto os estromatólitos quanto os trombólitos, oncólitos e tapetes algais. O termo estromatoporóide é usado para estruturas semelhantes a estromatólitos, porém de origem incerta ou duvidosa.

Os estromatólitos representam uma das mais antigas evidências de atividade orgânica na Terra, alguns datando de aproximadamente 3 Ga. Durante o Pré-Cambriano e um pouco menos no início do Paleozóico, constituíram impressionantes estruturas recifais (Figura 1). As cianobactérias que participavam de sua construção foram possivelmente responsáveis pela geração de parte do oxigênio da antiga atmosfera terrestre, sendo a forma de vida dominante por mais de 2 bilhões de anos. Atualmente são observados em lagos salinos alcalinos, porém ocorrem também em lagos menos salinos de regiões frias5.

Figura 1 - Associação de estromatólitos colunares. Grupo Bambuí, Proterozóico Superior, Bahia (foto: A. Mainieri).

 

Embora fossem abundantes nos oceanos do Pré-Cambriano, estromatólitos são raros nos oceanos modernos. Ocorrem entretanto em grande quantidade em Shark Bay, Austrália, associados a lagunas hipersalinas (Figura 2). Nesta região ocorrem tanto nas zonas intermaré como inframaré, sendo a sua geometria muito afetada pela energia do ambiente. Em áreas protegidas as estruturas são alongadas e amplas, porém nas regiões inframaré os pilares alcançam maiores dimensões, crescendo a profundidades de até 3,5 metros. Em direção às zonas mais rasas, perdem gradualmente o seu relevo, de tal forma que na zona intermaré superior predominam os tapetes algais estratiformes6.

Figura 2 - Grupo de estromatólitos colunares crescendo sobre areias oolíticas em lâmina d’água de 3 m. Laguna de Hamelin, Shark Bay, Austrália. (Fotografia: P. Playford)6.

 

Um exemplo moderno de crescimento de estromatólitos em ambientes não marinhos é representado pela lagoa Salgada, próxima ao Cabo de São Tomé, no norte do Estado do Rio de Janeiro. Nesta área, as estruturas estromatolíticas não chegam a atingir grandes dimensões verticais. Este fato pode estar relacionado ao gradual recuo das margens da lagoa, causando a exposição das estruturas recém-construídas e dos tapetes algais (Figura 3).

Um dos principais problemas relacionados ao estudo dos estromatólitos está em sua classificação e nomenclatura. Deve-se levar em conta que sua descrição envolve a caracterização de um ecossistema constituído geralmente por mais de um organismo, e não a descrição isolada de um indivíduo. Embora normalmente adotada, a dificuldade e inconsistência da aplicação de uma nomenclatura linneana tem sido bastante discutida e condenada.

Figura 3 - Crescimento de estromatólitos recentes em ambiente lacustre hipersalino. O espaço entre as estruturas é preenchido por areias de composição bioclástica. Lagoa Salgada, Campos, Rio de Janeiro.

 

 

A importância econômica do estudo dos estromatólitos reside principalmente no fato de algumas formas apresentarem grandes concentrações de fosfato em sua estrutura, constituindo grandes reservas deste composto.

Na bacia de Sergipe, construções recifais de algas solenoporáceas de grandes dimensões são comuns na Formação Riachuelo, principalmente no Albiano médio. Oncólitos e outras pequenas estruturas algais distribuem-se por toda esta formação. Em rochas permianas da Formação Aracaré, que afloram na porção sul da bacia de Alagoas, são comuns pequenos estromatólitos e tapetes algais silicificados, ainda pouco estudados (Figura 4).

 

Figura 4 - Estromatólito da Formação Aracaré, Permiano da bacia de Alagoas (cerca de 270 milhões de anos).

1Kalkowsky, E. 1908. Oolith and stromatolith in norddeutschen Buntsandstein, Deutsche Geologisisches Gessellschaft Zeitshrift, 60, 112 pp.

2Walter, M. R. 1976. Glossary of selected terms. In Walter, M. R. (ed.), Stromatolites. Developments in Sedimentology, 20: 687-692.

3Aikten, J. D. 1967. Classification and environmental significance of cryptalgal limestones and dolomites, with illustrations from the Cambrian and Ordovician of southwestern Alberta. Journal of Sedimentary Petrology, 37(4): 1163-1178.

4Burne, R. V. & Moore, L. S. 1987. Microbialites: organosedimentary deposits of benthic Microbial communities. Palaios, 2: 241-254.

5Dean, W. E. & Fouch, T. D. 1983. Lacustrine Environment. In Scholle, P. A.; Bebout, D. G. & Moore, C. H. (eds.), Carbonate Depositional Environments. American Association of Petroleum Geologists, Memoir, 33: 98-130.

6James, N. P. 1983. Reef Environment. In Scholle, P. A.; Bebout, D. G. & Moore, C. H. (eds.), Carbonate Depositional Environments. American Association of Petroleum Geologists, Memoir, 33: 346-462.

 

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