Neste número:

  1.  Nanofósseis calcários

Ano 3

Número 33

Setembro 2001

 

Os fósseis da bacia de Sergipe-Alagoas

Nanofósseis calcários

Nanofósseis calcários

Paulo César Galm* & Rogério Loureiro Antunes#

*Fundação Paleontológica Phoenix/PETROBRAS UN-SEAL, Aracaju, Sergipe, Brasil (e-mail: pcgalm@petrobras.com.br)

#PETROBRAS/CENPES, Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil (e-mail: antunes@cenpes.petrobras.com.br)

A expressão nanofósseis calcários refere-se ao conjunto de partículas fósseis, de composição química carbonática, com dimensões inferiores a 50 µm. De um modo geral, este grupo, com registro fóssil exclusivamente marinho, é dividido em duas grandes categorias: os cocólitos e as formas associadas. Os cocólitos apresentam forma arredondada e provém da desagregação do envoltório carbonático de certas algas unicelulares planctônicas predominantemente marinhas, conhecidas como cocolitoforídeos. As formas associadas, também de composição carbonática, exibem forma mais variada e referem-se tanto às partículas orgânicas de taxonomia indefinida (incertae sedis), quanto àquelas oriundas de organismos não relacionados necessariamente aos cocolitoforídeos1.

Com origem no neo-Triássico, os nanofósseis compõem o grupo mais abundante de fósseis calcários do planeta, sendo os cocolitoforídeos os maiores produtores de carbonatos pelágicos. A sua abundância, aliada à ampla distribuição geográfica, rápida evolução e ao fato de serem provenientes de organismos predominantemente planctônicos, fazem com que sejam muito utilizados em estudos bioestratigráficos de depósitos marinhos. Devido às suas pequenas dimensões, os nanofósseis são encontrados principalmente em rochas de granulometria fina.

Os nanofósseis apresentam conformação extremamente variada. Em geral, os cocólitos exibem contornos circulares a elípticos e são formados por duas placas arqueadas (escudos), unidas por intermédio de um pequeno tubo. A placa convexa é denominada escudo distal e a placa côncava, de menor tamanho, escudo proximal. Quando os cocólitos integram o envoltório da alga, formando a cocosfera, encontram-se ligeiramente separados ou interligados. O escudo distal é o que permanece em contato com o meio ambiente.

As placas dos cocólitos podem conter uma série de ornamentações, tais como perfurações, hastes, espinhos, barras simples ou duplas (em geral entrecruzando-se em + ou em x), espessamento bordejando o limite externo do escudo, etc. (Figura 1). Estas ornamentações são a base da classificação taxonômica.

 

Figura 1 - Cocólitos. A) Chiasmolithus grandis; B) Cruciplacolithus tenuis; C) Rhabdosphaera claviger; D) Dictyococcites bisecuts (aumento médio de 1500 vezes).

Os nanofósseis de origem indefinida e aqueles não relacionados aos cocólitos apresentam conformação bastante variada. Formas semelhantes a rosetas, estrelas, agulhas, ferraduras, esferas e ogivas, entre outras, são as mais comuns (Figura 2).

Os nanofósseis são investigados tanto do ponto de vista paleontológico quanto do geoquímico. Com relação à geoquímica, os nanofósseis são vistos como partículas minerais, cuja constituição reflete a composição química do meio em que foram formados (água do mar). Deste modo, prestam-se para estudos isotópicos do carbono e do oxigênio com vistas às interpretações paleoceanográficas. Do ponto de vista micropaleontológico, a pesquisa é feita de dois modos, embora inter-relacionados: por intermédio do microscópio óptico com sistema de polarização e contraste de fase e por microscópio eletrônico de varredura (MEV). Investigações que objetivem a elaboração de zoneamentos bioestratigráficos e a contagem de espécimens para interpretações paleoambientais são principalmente conduzidas utilizando-se o microscópio óptico. O MEV é empregado nos estudos de taxonomia e de preservação.

 

Figura 2 - Nanofósseis incertae sedis. A) Discoaster hamatus; B) Ceratolithus cristatus; C) Quadrum gothicus; D) Sphenolithus heteromorphus (aumento médio de 1500 vezes).

Por possuírem clorofila, os cocolitoforídeos atuais são essencialmente organismos fotossintetizantes e representam os mais importantes fixadores de energia solar dos oceanos. São registrados atualmente em todos os oceanos. Na composição das comunidades, o predomínio de determinadas espécies, a presença ou ausência de outras, são características que variam de local para local, sendo a temperatura o fator que mais interfere nesta variação. As associações das faixas tropicais são mais ricas e diversificadas do que aquelas das faixas temperadas e subpolares. Habitam principalmente a zona fótica (de 0 a 200m de profundidade), sendo que a concentração máxima ocorre geralmente entre 0 e 100m, no cinturão tropical, e a menos de 50m nas regiões temperadas. Os cocolitoforídeos são, em geral, organismos oligotróficos, concentrando-se em águas bem estratificadas, com baixo teor de nutrientes.

A utilização dos nanofósseis na edificação de arcabouços bioestratigráficos foi aventada, pela primeira vez, em 19542. A partir daí teve início uma série de estudos, nos quais a distribuição estratigráfica dos vários taxa foi investigada. Diante do acúmulo de informações, no transcorrer da década de 70, vários pesquisadores promoveram a integração das mesmas e propuseram os primeiros zoneamentos para os principais sistemas cronoestratigráficos onde o nanoplâncton é registrado 3, 4, 5.

A pesquisa de nanofósseis em depósitos sedimentares das bacias marginais brasileiras iniciou-se com a exploração petrolífera no mar. Como resultado dessas investigações foram publicados os primeiros zoneamentos bioestratigráficos para a seção marinha6. Desde então, este grupo fóssil tem sido amplamente empregado pela PETROBRAS na elaboração de biozoneamentos de seções perfuradas, principalmente, nas bacias de Sergipe-Alagoas, Bahia Sul, Espírito Santo, Campos, Santos, Potiguar e Ceará1.

Outras informações relativas ao nanoplâncton podem ser obtidas na home page da International Nannoplankton Association (http://www.nhm.ac.uk/hosted_sites/ina/).

1Antunes, R. L. 1997. Introdução ao estudo dos nanofósseis calcários. Universidade Federal do Rio de Janeiro, Instituto de Geociências, Série Didática, Rio de Janeiro, 115 pp.

2Bramlette, M. N. & Riedel, W. R 1954. Stratigraphic value of discoasters and some other microfossils related to recent coccolithophores. Journal of Paleontology, 28(4): 385-403.

3Sissingh, W. 1977. Biostratigraphy of Cretaceous calcareous nannoplankton. Geologie en Mijnbouw, 56: 37-65. Amsterdam.

4Sissingh, W. 1978. Microfossil biostratigraphy and stage-stratotypes of the Cretaceous. Geologie en Mijnbouw, 57: 433-440. Amsterdam.

5Perch-Nielsen, K. 1985. Mesozoic calcareous nannofossils; Cenozoic calcareous nannofossils. In: Bolli, H. M.; Saunders, J. B. & Perch-Nielsen, K. (Eds.), Plankton stratigraphy, Cambridge University Press, Cambridge, pp. 329-554.

6Troelsen, J. C. & Quadros, L. P. 1971. Distribuição bioestratigráfica dos nanofósseis em sedimentos marinhos (Aptiano-Mioceno) do Brasil. Anais da Academia Brasileira de Ciências, 43 (suplemento):577-609.

7Winter, A. & Siesser, W. 1994. Coccolithophores. Cambridge University Press, Cambridge, 242pp.

 

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