Neste número:

  1. Os foraminíferos

 

Ano 3

Número 35

Novembro 2001

 

Foraminífero planctônico Hedbergella (Favusella) washitensis Carsey, Aptiano superior, bacia de Sergipe.

Os fósseis da bacia de Sergipe-Alagoas

Os foraminíferos

 

Os foraminíferos

Denize Santos Costa* & Eduardo Apostolos Machado Koutsoukos#

* PETROBRAS/CENPES/BPA, Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil (e-mail: denizesc@cenpes.petrobras.com.br)

# PETROBRAS/CENPES/BPA, Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil (e-mail: koutsoukos@cenpes.petrobras.com.br)

Os foraminíferos são microorganismos unicelulares heterotróficos pertencentes à Ordem Foraminiferida, Subclasse Glanuloreticulosia, Classe Rhizopodea, Subfilo Sarcodina, Filo Protozoa, do Reino Protista. São globalmente abundantes, possuindo hábitos de vida pelágico ou bentônico, ocorrendo da transição entre o continente e a plataforma continental à planície hadal. São um dos componentes mais comuns da meiofauna e microfauna do bentos dos oceanos desde o Cambriano, e do zooplâncton marinho desde o neo-Jurássico. Os gêneros de água doce são raros (Subordem Allogromiina), ocorrendo principalmente em ambientes estuarinos.

No registro histórico1, os foraminíferos foram citados pela primeira vez por Heródoto (484?– 425? a.C.), ao observar alguns fósseis em forma e tamanho de moedas (Nummulites gizehensis) nos blocos de rocha usados nas pirâmides do Egito.

Esses protozoários complexos, que podem ter mais de um núcleo no citoplasma, apresentam pseudópodes e uma carapaça externa (teca), inteiramente secretada pelo citoplasma ou composta por partículas agregadas por cimento biogênico. Possuem, em média, de 50-100 µm a 1 mm, mas alguns espécimes (p. ex., Família Nummulitidae) podem atingir grandes dimensões (de 1 a >10 cm). Estes últimos são informalmente denominados de "macroforaminíferos", sendo característicos em ambientes de sedimentação carbonática na zona fótica. A teca possui como unidade fundamental as câmaras. O contato entre as câmaras forma uma parede (septo), que externamente aparece como uma sutura (Figura 1). As formas primitivas possuem uma única câmara (unilocular), e as formas mais desenvolvidas, com arranjos e número de câmaras diferenciados, são multiloculares. Na teca existem pequenos poros, uma abertura principal (forâmen) e, ocasionalmente, aberturas secundárias. É através do forâmen que o protoplasma e os pseudópodes se expandem para flutuação (planctônicos) ou locomoção (bentônicos) e captura de alimentos. O ciclo reprodutivo consiste na alternância de gerações sexuadas e assexuadas, sendo a reprodução assexuada mais comum .

Figura 1 - Principais estruturas da teca dos foraminíferos: a) corte transversal de um foraminífero bentônico calcário-hialino; b) vista apertural2.

A classificação dos foraminíferos é baseada principalmente na composição, microestrutura e caracteres morfológicos externos da teca1. As tecas quitinosas ocorrem, em geral, em formas primitivas. As tecas aglutinadas são compostas por grãos minerais e/ou elementos biogênicos cimentados por quitina, sílica e/ou calcita secretada pelo próprio organismo. As tecas de cimento organo-silicoso são comuns em ambientes marinhos profundos e raras na plataforma; já as calcárias, constituídas de calcita ou aragonita, são bastante comuns em espécimes da plataforma continental.

Os foraminíferos planctônicos vivem em geral próximos à superfície das águas (6 a 30 m), sendo praticamente ausentes abaixo de 200 m de profundidade. Sua proliferação, larga distribuição geográfica, fácil reconhecimento morfológico e evolução rápida permitem a utilização de várias espécies como marcadores bioestratigráficos.

Os foraminíferos bentônicos vivem sobre (epifauna) ou dentro (infauna) do substrato marinho, por vezes se fixando no fundo através de pseudópodes anastomosados. Podem ser fixos ou de locomoção limitada, sendo excelentes indicadores de diversos parâmetros ecológicos, bióticos e abióticos, típicos ao hábitat em que se encontram. Vários fatores abióticos controlam a distribuição dos foraminíferos: temperatura, salinidade, tipo de substrato, zona fótica, concentração de oxigênio e CO2, variação de nutrientes, disponibilidade de carbonato de cálcio para a biomineralização, dentre outros. A identificação e caracterização destes parâmetros contribuem sobremaneira nos estudos paleoecológicos e de reconstrução da história evolutiva de bacias sedimentares, dando importante suporte na integração estratigráfica aplicada à pesquisa na indústria de petróleo.

A seção marinha aflorante da bacia de Sergipe é considerada uma das mais completas da margem continental, tendo preservada em seu registro estratigráfico a história deposicional e os principais eventos paleoceanográficos representativos da evolução do Atlântico Sul setentrional. Foraminíferos planctônicos e bentônicos são recuperados em todas as seções carbonáticas e siliciclásticas, aflorantes e de subsuperfície, compondo associações bem diversificadas, com densidade e preservação variável. De maneira geral, indivíduos ben-tônicos de teca calcária-hialina predominam em rochas depositadas em ambientes neríticos (plataforma) e no batial superior (talude), enquanto que espécimes de teca aglutinante e cimento organo-silicoso dominam em depósitos de águas profundas no talude (batial médio-inferior)3. As associações recuperadas de depósitos pelíticos da Formação Calumbi (Cretáceo Superior a Mioceno-Plioceno?) são caracterizadas por uma alta diversidade específica e abundância, apresentando ainda excelentes condições de preservação.

As mais antigas associações de foraminíferos planctônicos recuperados na bacia (Figura 2) permitem datar o estabelecimento de condições marinhas francas no neo-Aptiano4, tempo que corresponde ao início do desenvolvimento da sedimentação marinha da fase drift no Atlântico Sul setentrional, após o estágio proto-marinho evaporítico do Aptiano. Estes organismos marinhos pioneiros demonstram afinidades biogeográficas estreitas com regiões do Atlântico Norte meridional e o Mar de Tétis, sugerindo o possível intercâmbio de águas superficiais entre as duas regiões.

No Cretáceo, o máximo de diversidade ocorreu no eocampaniano (cerca de 105 espécies de foraminíferos bentônicos são registradas), correspondente ao máximo paleobatimétrico e, portanto, de diversidade de nichos ecológicos da bacia4.

Figura 2 - Foraminíferos do Aptiano superior da bacia de Sergipe-Alagoas: a) Lingulogavelinella ciryi Malapris-Bizouard, foraminífero bentônico calcário-hialino; b) Marssonella trochus (d'Orbigny) var. turris d'Orbigny, foraminífero bentônico aglutinante (barra da escala igual a 100m m).

1Loeblich Jr., A. R. & Tappan, H. 1964. Sarcordina chiefly "Thecamoebians" and Foraminiferida. In R. C. Moore (Ed.): Treatise on Invertebrate Paleontology, Part C, Protista 2. Geological Society of America and University of Kansas Press. 900 pp.

2Jones, D. J. 1956. Introduction to Microfossils. Harper's Geoscience Series, New York, 406 pp.

3Koutsoukos, E. A. M. & Hart, M. B. 1990. Cretaceous foraminiferal morphogroup distribution patterns, palaeocommunities and trophic structures: a case study from the Sergipe Basin, Brazil. Transactions of the Royal Society of Edinburgh: Earth Sciences, 81: 221-246.

4Koutsoukos, E. A. M. 1992. Late Aptian to Maastrichtian foraminiferal biogeography and palaeoceanography of the Sergipe Basin, Brazil. In B. A. Malmgren & P. Bengtson (Eds.), Biogeographic Patterns in the Cretaceous Ocean. Palaeogeography, Palaeoclimatology, Palaeoecology, Special Issue, 92(3/4): 295-324.

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