Neste número

  1. Os Dinoflagelados: palinomorfos muito especiais
  2. Três anos de atividades
  3. Agradecimentos
  4. Projetos em realização

Ano 3

Número 36

Dezembro 2001

 
Adnatosphaeridium reticulense, cisto do Paleoceno superior da bacia de Sergipe (cerca de 55 milhões de anos - Formação Calumbi).

Os fósseis da bacia de Sergipe-Alagoas

Os Dinoflagelados: palinomorfos muito especiais

 

A Fundação Paleontológica Phoenix completa três anos de atividades e o PHOENIX completa três anos de publicação. Planejado inicialmente como um meio de divulgação das atividades da fundação e da geologia e paleontologia das bacias sedimentares brasileiras, tendo como enfoque principal a bacia de Sergipe-Alagoas, o PHOENIX vem sendo amplamente reconhecido por pesquisadores e estudantes pelo seu caráter didático. Este reconhecimento, além de motivo de grande alegria, é para a equipe da fundação, um estímulo para, mesmo com dificuldades, manter a periodicidade e favorecer a contribuição de renomados pesquisadores da paleontologia do Brasil. O entusiasmo do nosso público reflete principalmente o sucesso que tem sido a publicação sobre os grupos fósseis que ocorrem na bacia de Sergipe-Alagoas. Iniciada há pouco mais de um ano e meio, esta série já percorreu os macroinvertebrados, encontrando-se atualmente na abordagem dos microfósseis. Brevemente começará a tratar dos vegetais de grande porte e dos vertebrados.

Preservar o patrimônio fossilífero é também realizar a divulgação da nossa riqueza. O conhecimento gera valorização daquilo que temos em abundância em nosso país, mas que poucas pessoas ainda sabem que existe. A preservação deste patrimônio é um grande desafio, mas a conscientização da sociedade certamente facilitará bastante esta ação.

Os Dinoflagelados: palinomorfos muito especiais

Cecilia Cunha Lana*

* PETROBRAS/CENPES, Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil (e-mail: lana@cenpes.petrobras.com.br)

Quando ouvimos falar pela primeira vez em dinoflagelados, imediatamente nos remetemos aos famosos "dinos", os admiráveis e temidos dinossauros (do grego deinós, "terrível"). Entretanto, são de fato organismos completamente diferentes. Etmologicamente, dinoflagelado deriva do grego dînos (pião, rodopiar + flagellates, com flagelos), em referência ao modo particular de movimentação deste microorganismo nos corpos d'água. Estes diminutos protistas podem ser extremamente danosos à cadeia trófica e ao ser humano, como nas "explosões" fitoplanctônicas, onde espécies produtoras de toxinas proliferam em curtíssimos períodos de tempo, nos episódios popularmente conhecidos como "marés vermelhas" (Figura 1).

Figura 1 - "Maré vermelha" composta por Noctiluca sp. (foto: Peter Franks; www.redtide.whoi.edu/hab/rtphotos/rtphotos.html).

Dinoflagelados são microorganismos unicelulares eucariontes (que possuem um núcleo envolvido por uma membrana), agrupados na Classe Dinophyceae, Divisão Dinoflagellata do Reino Protista1. Típico do grupo é a presença do pigmento carotenóide peridina, responsável pela coloração vermelho-alaranjada. Outras características especiais são o ciclo de vida, hábitos tróficos e o potencial de preservação fossilífera.

Os organismos viventes ocasionalmente produzem tecas (estrutura envoltória da célula, celulósica e não fossilizável). Estas tecas possuem dois flagelos para movimentação na água, seus núcleos têm apenas metade do número de cromossomos de gametas normais (célula haplóide) e se reproduzem assexuadamente, em sucessivas divisões mitóticas. Em determinado momento do ciclo, as tecas haplóides fundem-se (reprodução sexuada) e formam uma célula diplóide, e a partir daí a teca celulósica cresce. Esta sucessão constitui a fase móvel do ciclo vital. Graças a uma adaptação evolutiva às condições ambientais adversas, as tecas diplóides começam a produzir cistos (fossilizáveis), que encerram o material celular e constituem a fase imóvel do ciclo. Após o encistamento, a parede celulósica se desagrega e o cisto é sedimentado ou ainda, em condições ambientais favoráveis, o protoplasma excista-se através de uma abertura chamada arqueopilo, e reinicia-se o ciclo com a formação de novas tecas móveis2 (Figura 2).

Figura 2 - Ciclo de vida esquemático de dinoflagelados produtores de cistos3.

Cerca de metade dos dinoflagelados é autotrófica e o restante heterotrófico, incluindo até organismos saprófitos. Ocupam praticamente todos os hábitats aquáticos do planeta, como oceanos, estuários, litorais, lagunas, lagos doces a salobros, e surpreendentemente, adaptam-se até às águas intersticiais de areias de praias e à neve! Entretanto, são dominantemente marinhos e planctônicos, desenvolvendo-se preferencialmente em ambientes neríticos de baixas a médias latitudes, onde fatores como disponibilidade de nutrientes, oxigenação, luminosidade, temperatura e salinidade são mais favoráveis aos seus ciclos vitais4.

Os dinoflagelados fósseis (dinocistos) são estruturas muito pequenas, entre 5 e 200 mm, de composição variável (calcários, silicosos) mas dominantemente orgânicos, compostos por dinosporina. De morfologia muito variada, apresentam uma parede organizada em placas cujo número e arranjo é conhecido como paratabulação, a qual reflete, em parte, a organização das tecas celulósicas (tabulação; Figura 3).

Figura 3 - Relação morfológica entre teca (organizada em placas) e cisto (com processos associados às placas) 2.

Para ser reconhecido como tal, um dinoflagelado deve apresentar um cíngulo ("cintura" transversal), sulco (depressão longitudinal) e uma abertura (arqueopilo), elementos definidores da paratabulação. Essencialmente, a presença destes elementos diferencia os dinoflagelados dos acritarcos, organismos microfitoplanctônicos abundantes no Paleozóico, abordados no número 34 desta série.

A classificação taxonômica dos dinocistos é fortemente baseada nos padrões de tabulação, sendo que as formas mais comuns no registro fóssil representam espécies relacionadas aos gêneros viventes (Figura 4), como Ceratium (grupo dos ceratióides), Peridinium (peridinióides) e Gonyaulax (goniaulacóides).

Figura 4 - Imagens de M.E.V. dos gêneros atuais Ceratium, Protoperidinium e Gonyaulax. (escala gráfica = 20 mm).

Dinoflagelados fósseis ocorrem desde o Triássico Superior. A partir do Jurássico Superior o grupo apresenta uma forte diversificação, atingindo máximos no Cretáceo e Paleogeno e diminuindo significativamente em direção ao Quaternário e Recente. Atualmente, apenas cerca de 10% dos dinoflagelados viventes, todos marinhos, produz cistos fossilizáveis. A rápida evolução morfológica dos cistos de dinoflagelados, aliada ao hábito planctônico e às distribuições freqüentemente cosmopolitas (eventos de surgimento e extinção globais), confere ao grupo um excelente potencial biocronoestratigráfico5. Na última década os dinocistos vêm sendo utilizados em interpretações paleoambientais e em análises estratigráficas integradas.

Na bacia de Sergipe-Alagoas, dinoflagelados ocorrem em praticamente toda a seção marinha do Cretáceo e Cenozóico, com os registros mais antigos no Aptiano superior6. Apesar desta conhecida riqueza e diversidade, os registros publicados de dinocistos na bacia são escassos6,7. Permanece como um desafio paleontológico o estabelecimento de um arcabouço bioestratigráfico com base neste importante grupo de microfósseis para a bacia de Sergipe-Alagoas. Quem se habilita?

1Fensome, R. A. et al. 1993. A classification of living and fossil dinoflagellates. American Museum of Natural History, Micropaleontology, Special Publication, 7, 351 pp.

2Evitt, W. R. 1985. Sporopollenin Dinoflagellate Cysts: Their Morphology and Interpretation. American Association of Stratigraphic Palynologists Foundation, Austin, 333 pp.

3Williams, G. L.; Sarjeant, W. A. S. & Kidson, E. J. 1978. A glossary of the terminology applied to dinoflagellate amphiesmae and cysts and acritarchs. American Association of Stratigraphic Palynologists, Contribution Series, 2a, 122 pp.

4Wall, D.; Dale, B.; Lohmann, G. P. & Smith, W. K. 1977. The environment and climatic distribution of dinoflagellate cysts in modern marine sediments from regions in the North and South Atlantic Oceans and adjacent seas. Marine Micropaleontology, 2: 121-200.

5Williams, G. L. & Bujak, J. P. 1985. Mesozoic and Cenozoic dinoflagellates. In Bolli, H. M.; Saunders, J. B. & Perch-Nielsen, K. (Eds.), Plankton Stratigraphy, Cambridge University Press, Cambridge, pp. 847-1032.

6Carvalho, M. A. 2001. Paleoenvironmental reconstruction based on palynological and palynofacies analyses of the Aptian-Albian succession in the Sergipe Basin, northeastern Brazil. Tese de doutorado não publicada, Universität Heidelberg, Geologisch-Paläontolo-gisches Institut. 150 pp., 6 estampas, 4 apêndices.

7Herngreen, G. F. W. 1975. Palynology of Middle and Upper Cretaceous strata in Brazil. Mededelingen Rijks Geologische Dienst, Nieuwe Serie, 26(3): 39-91.

Três anos de atividades

A Fundação Paleontológica Phoenix completou neste mês três anos de atividades, um curto período de existência, mas que tem sido marcado pela luta na preservação e divulgação da geologia e paleontologia da bacia de Sergipe-Alagoas.

Com o dinamismo de um acervo sempre em crescimento, neste ano nossa coleção foi bastante ampliada, com várias coletas realizadas, principalmente nas seqüências marinhas do Estado de Sergipe. Foram ainda incorporados ao acervo material procedente das bacias do Recôncavo, Pará-Maranhão e Amazonas.

A informatização da coleção encontra-se em constante avanço, o que tem facilitado a consulta ao numeroso acervo. Durante o 17° Congresso Brasileiro de Paleontologia, realizado em Rio Branco, no Acre, foi apresentado à comunidade científica a versão preliminar do programa Trilobit, especialmente desenvolvido para a fundação e utilizado para a catalogação e controle do nosso acervo paleontológico e também no cadastro de afloramentos (Figura 5). A colocação da primeira versão no mercado está prevista para o final de 2002.

Figura 5 - Aspecto geral do programa TRILOBIT utilizado na catalogação dos fósseis pela fundação.

Durante este ano, a Fundação forneceu apoio a diversas visitas técnicas de pesquisadores à bacia de Sergipe. Estas visitas visaram principalmente o estudo das sucessões marinhas da bacia e tiveram a participação de pesquisadores e estudantes da Universidade Estadual do Rio de janeiro (UERJ), Universidade de São Paulo (USP), Companhia Vale do Rio Doce (CVRD) e Universidade de Heidelberg (Alemanha). Continuaram ainda as atividades didáticas junto a estudantes do ensino médio e fundamental.

A fundação vem realizando diversos projetos de pesquisa (listados a seguir), muitos associados a pesquisadores de outras instituições. Em 2001, com a divulgação do primeiro edital da Fundação de Amparo à Pesquisa de Sergipe (FAP), nossa fundação teve um de seus projetos aprovados para ser financiado com recursos do Fundo Estadual para o Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FUNTEC). A fundação sente-se honrada por este reconhecimento, ao ser a única instituição privada de pesquisa, de caráter não universitário, agraciada com estes recursos.

A fundação iniciará, a partir do próximo ano, a publicação de números especiais versando sobre a geologia e paleontologia da bacia de Sergipe-Alagoas. O primeiro número, já no prelo, será uma edição bilíngüe intitulada "A bacia de Sergipe-Alagoas: Evolução geológica, estratigrafia e conteúdo fóssil". A realização desta publicação tem como objetivo reunir informações técnicas básicas sobre a bacia de Sergipe-Alagoas, de forma atualizada e condensada, para servir de base aos pesquisadores que se interessem pela geologia e paleontologia desta bacia. O segundo número, já em preparação, apresentará uma sinopse das localidades fossilíferas da bacia de Sergipe-Alagoas, iniciada pelos afloramentos da Formação Riachuelo (Aptiano-Albiano). Outros números serão posteriormente publicados sobre as localidades fossilíferas das demais unidades estratigráficas, o que facilitará a padronização da nomenclatura das localidades e também o seu acesso aos pesquisadores.

Agradecimentos

Finalizando mais um ano de atividades, expressamos nossa gratidão a todos que colaboraram conosco em 2001, certos de que a participação de cada um tem sido muito importante para que possamos alcançar nossos objetivos.

A Fundação gostaria de efetuar um agradecimento especial à PETROBRAS/ UN-SEAL, através de seu Gerente-Geral Paulo Manuel Mendes de Mendonça, pelo apoio recebido para a impressão dos informativos mensais e também pelo incentivo às nossas pesquisas, concretizado pela doação de um microscópio ótico à fundação. Agradecemos também a Cândida Carneiro C. Salvador (PETROBRAS) pelos livros doados à nossa biblioteca e ao apoio de Edson João da Silva, Geraldo Antonio Lisboa Barros, James Vitor Ferreira, Jane Eyre Prado Marques, Jorge Cariri Melo, Joaquim Braz da Penha Neto, Railton Vicente da Silva, Valmir Matias dos Anjos e Wédimo Enedino dos Santos (todos PETROBRAS).

Somos imensamente gratos a Iolanda Fátima P. Ewerton pela dedicada atuação na divulgação da fundação. Agradecemos a Antônio Francisco Cisne e Afonso L. P. Carvalho, da Companhia Vale do Rio Doce e a Paulo Fernando de Toledo Damasceno e Jacinto A. Carvalho Neto, da Cimento Sergipe S.A. (CIMESA) por permitir e acompanhar nossas visitas técnicas às minas das unidades de Sergipe. Colaboraram ainda com as nossas pesquisas Peter Bengtson, Jens Seeling, Omar Aguiar e Tilson Coelho. Reinaldo Barreto e Tânia Guimarães (Microscopia Ótica, Rio de Janeiro) gentilmente realizaram a manutenção do nosso microscópio ótico.

Projetos em realização

Apresenta-se a seguir os projetos em realização pela fundação.

Equinóides do Albiano: C.L.C. Manso (projeto PhD, Univ. Fed. Bahia, Fundação Paleontológica Phoenix, Aracaju), P. Bengtson (Univ. Heidelberg, Alemanha), W. Souza-Lima (Fundação Paleontológica Phoenix, Aracaju)

Estratigrafia integrada do Albiano médio-superior com base em amonóides e inoceramídeos: W. Souza-Lima

Braquiópodes do Albiano: W. Souza-Lima, V.M.M. Fonseca (Museu Nacional, Rio de Janeiro)

Cleoniceras do Albiano: W. Souza-Lima, P. Bengtson

O gênero Neithea no Cretáceo do Brasil: E. de J. Andrade (Fundação Paleontológica Phoenix, Aracaju), W. Souza-Lima, J. Seeling (Univ. Heidelberg)

Eventos biológicos no Turoniano-Coniaciano: W. Souza-Lima, E. de J. Andrade

Estratigrafia integrada de alta resolução do Turoniano e porção mais basal do Coniaciano: E.J. Andrade (projeto PhD, Univ. Heidelberg), P. Bengtson

Macrofaunas e ambientes deposicionais do Campaniano-Maastrichtiano: W. Souza-Lima (projeto PhD concluído, Univ. Fed. Rio de Janeiro)

Mosassauros do Campaniano: W. Souza-Lima, I.S. Carvalho (Univ. Fed. Rio de Janeiro)

Bioestratigrafia e paleogeografia do Campaniano-Maastrichtiano: P. Bengtson, W. Souza-Lima, K.-A. Tröger (Bergakademie Freiberg, Alemanha), E.A.M. Koutsoukos (Petrobras, Rio de Janeiro), J.A. Burnett (University College London, Inglaterra)

Amonóides do Campaniano-Maastrich-tiano: P. Bengtson, W. Souza-Lima

Análise de proveniência dos arenitos marinhos do Campaniano-Maastrichtia-no: G.C. Pinho (Petrobrás, Aracaju), W. Souza-Lima

Roteiro turístico geológico-paleontológi-co da bacia de Sergipe-Alagoas: W. Souza-Lima, E.J. Andrade, I. F. P. Ewerton (Fundação Paleontológica Phoenix e Univ. Tiradentes, Aracaju)

Paleontologia da Formação Aliança, bacia de Camamu: W. Souza-Lima, R. Souza-Lima, I.S. Carvalho

Estudos geológicos e paleontológicos da bacia de Camamu, Bahia: W. Souza-Lima, E.J. Andrade, C.L.C. Manso

 

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