Neste número:

  1. Os radiolários

Ano 4

Número 37

Janeiro 2002

 

Os fósseis da bacia de Sergipe-Alagoas

Os radiolários

 

Os radiolários

Simone Baecker Fauth* & Eduardo Apostolos Machado Koutsoukos #

* CPGEO–UFRGS, Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil (e-mail: sbfauth@hotmail.com)

# PETROBRAS/CENPES/BPA, Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil (e-mail: koutsoukos@cenpes.petrobras.com.br)

Os radiolários são protistas microscópicos que possuem esqueleto silicoso. São exclusivamente marinhos e fazem parte do zooplâncton. Possuem cores diversas e formas cônicas, discoidais, cilíndricas e espiraladas. Na cadeia alimentar, os radiolários são consumidores primários, usando seus pseudópodes para se alimentar de bactérias, algas, pequenos copépodos e protozoários. Por outro lado, servem de alimento para crustáceos, peixes e outros animais. As espécies solitárias variam de 0,05 mm a 0,3 mm, mas as espécies que vivem em colônias podem atingir, em alguns casos, 3 m de comprimento1. A reprodução é geralmente assexuada, por divisão simples da célula.

O protoplasma é dividido por uma membrana perfurada, chamada membrana capsular, em endoplasma e ectoplasma. No endoplasma ficam o núcleo, mitocôndrias e outras organelas, enquanto no ectoplasma (ou calymma) localizam-se os vacúolos digestivos e também algas simbiontes, quando presentes. Essa membrana capsular é característica exclusiva dos radiolários. Nas espécies que possuem esqueleto, este é interno, formando-se dentro do ectoplasma, sendo composto por sílica amorfa hidratada (SiO2.nH2O).

Os radiolários compreendem dois grupos: os Phaeodaria e os Polycystina (Figura 1).

O esqueleto dos radiolários normalmente é formado por uma rede de barras e espinhos, que são elementos alongados conectados a uma única extremidade. Os Phaeodaria têm geralmente esqueletos delicados compostos de sílica e matéria orgânica e tubos esqueletais ocos. Raramente são preservados nos sedimentos, pois seu esqueleto é muito frágil e exige condições especiais como rápida taxa de sedimentação e alto conteúdo de sílica para sua preservação. Entretanto, em amostras de plâncton atual, eles podem ser encontrados em bom número. Os Polycystina têm esqueleto formado por barras esqueletais sólidas, sendo preservados em grande quantidade nos sedimentos. Os Polycystina compreendem os Spumellaria, com esqueleto baseado em uma simetria radial, e os Nassellaria, com esqueleto cuja simetria geralmente é bilateral (Figura 2). Os radiolários Polycystina constituem o grupo de organismos microzooplanctônicos com esqueleto que tem a maior diversidade de espécies.

Figura 1 - Radiolários: a) Phaeodaria; b) Polycystina: Spumellaria; c) Polycystina: Nassellaria1.. Barra da escala igual a 100 m m.

Os registros mais antigos dos Polycystina datam do Cambriano, quando surgiram os espumelários, que existem até hoje. Os nasselários, que surgiram no Mesozóico, e os Phaeodaria, registrados somente a partir do Cretáceo, também ocorrem nos oceanos atuais. Os radiolários são bons fósseis-guia para os diversos períodos geológicos e portanto podem ser usados na bioestratigrafia.

Em águas oceânicas distantes do ambiente costeiro, onde a salinidade é normal, os radiolários geralmente são mais abundantes, mas também podem ser encontrados em baías, golfos, fiordes e mares epicontinentais. Nas regiões equatoriais dos oceanos e em zonas de ressurgência de águas frias de fundo, ricas em nutrientes, eles são mais freqüentes e diversificados, sendo por isso considerados bons indicadores de alta produtividade orgânica.

Figura 2 - Principais características morfológicas do esqueleto dos radiolários2.

Os radiolários têm uma ampla distribuição geográfica, ocorrendo em águas oceânicas desde o pólo sul até o pólo norte. Existem grupos distintos de espécies típicos de águas equatoriais, tropicais, subpolares e polares e grupos que preferem viver em diferentes profundidades d’água, desde as camadas mais superficiais (espécies simbiontes com algas) até águas das zonas abissais (+ de 4.000 m de profundidade).

Embora os radiolários sejam encontrados abundantemente no plâncton, sedimentos ricos nesses microorganismos (vasas de radiolários ou radiolaritos) são depositados geralmente em águas profundas, abaixo da zona de compensação do carbonato de cálcio (3.000 – 4.000 m de lâmina d’água), profundidade onde todas as partes duras de organismos calcários são dissolvidas. A dissolução dos esqueletos silicosos é mais acentuada nas águas superficiais, entretanto a não existência de uma profundidade de compensação de sílica explica como os radiolários podem ocorrer em sedimentos a mais de 1.000 m de profundidade, podendo alcançar 10.000 m. A zona crítica de dissolução dos radiolários3 está acima de 500 m. Esta é uma diferença importante entre organismos calcários e silicosos no que concerne à profundidade de dissolução.

No Brasil existem registros da ocorrência de radiolários em bacias sedimentares marginais, como, Barreirinhas, Ceará, Sergipe-Alagoas4,5 (Figura 3), Campos6, Santos e Pelotas (em rochas do Cretáceo ao Recente) e na bacia interior Sanfranciscana7. A presença de radiolários nesta bacia sugere que teria havido um mar durante o Cretáceo em Minas Gerais.

Figura 3 - Radiolários da bacia de Sergipe-Alagoas: a) Nassellariina Dictyomitra ex gr. multicostata (Formação Riachuelo, Albiano superior) ; b) Spumellariina Crucella irwini Pessagno (Formação Cotinguiba, Cenomaniano inferior)4. Barra da escala igual a 100 m m.

1Casey, R. E. 1993. Radiolaria. In J. H. Lipps (Ed.): Fossil Prokaryotes and Protists. Cambridge, Blackwell, pp. 249-322.

2Schaaf, A. 1984. Les Radiolaires du Crétacé inferieur et moyen: biologie et systematique. Sciences Géologiques, Mémoire, 75: 1-189.

3De Wever, P. Azema, J. & Fourcade, E. 1994. Radiolaires et radiolarites: production primaire, diagenese et paleogeographie. Bulletin des Centres de Recherches Exploration-Production Elf Aquitaine, 18 (1): 315-379.

4Koutsoukos, E. A. M. 1989. Mid- to late Cretaceous microbiostratigraphy, palaeo-ecology and palaeogeography of the Sergipe Basin, northeastern Brazil. Tese de doutorado não publicada, Department of Geological Sciences of Polytechnic South West, Plymouth, 2 volumes, 645 pp., apêndices 1-3 (36 pp. + 28 pp. não numeradas), 38 estampas.

5Koutsoukos, E. A. M. & Hart, M. B. 1990. Radiolarians and Diatoms from the mid-Cretaceous Successions of the Sergipe Basin, Northeastern Brazil: palaeoceanographic assessment. Journal of Micropaleontology, 9 (1): 45-64.

6Kotzian, S. C. B. & Eilert, V. P. 1987. Radiolários do Cretáceo médio da Bacia de Campos, Brasil. In: Congresso Brasileiro de Paleontologia, 10, Rio de Janeiro, Anais, pp. 783-796.

7Souza, V. 1993. Radiolários extraídos de rochas silicosas cretácicas da Bacia Sanfranciscana, Minas Gerais, Brasil. In: Congresso Brasileiro de Paleontologia, 13 & Simpósio Paleontológico do Cone Sul, 1, São Leopoldo, Resumos, p. 58.

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