Neste número:

  1. Palinoforaminíferos

Ano 4

Número 38

Fevereiro 2002

 
Palinoforaminífero espiralado do Paleoceno superior, Formação Calumbi, bacia de Sergipe-Alagoas.

Os fósseis da bacia de Sergipe-Alagoas

Palinoforaminíferos

Palinoforaminíferos

Elizabete Pedrão * & Marcelo de Araújo Carvalho #

* PETROBRAS/CENPES, Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil (e-mail: elizabete@cenpes.petrobras.com.br)

# UFRJ - Dept° de Geologia - Instituto de Geociências/CCMN, Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil (e-mail: mcarvalho@geologia.ufrj.br)

O termo palinoforaminífero1 foi criado com a finalidade de descrever revestimentos orgânicos internos de testas de microforaminíferos recuperados a partir da maceração de rochas sedimentares para estudos palinológicos. Diferentes nomenclaturas, baseadas principalmente em critérios biológicos e no tamanho dos palinoforaminíferos, são empregadas na classificação deste grupo de palinomorfos. Na primeira categoria (critérios biológicos) encontra-se a proposta formal supragenérica, Scytinascia, sugerida para incluir os revestimentos orgânicos de foraminíferos bentônicos. As relações entre estes remanescentes orgânicos e os organismos que os produzem não estão totalmente esclarecidas, permanecendo a dúvida se são originalmente uma parte interna de testas calcárias ou silicosas dos foraminíferos ou se representariam foraminíferos verdadeiros segregadores apenas de testa orgânica2, 3. Sob as designações de "membrana quitinosa interna", "restos pseudoquitinosos de foraminíferos" e "foraminiferal test linings" estariam os revestimentos quitinosos internos de testas mineralizadas de foraminíferos menores do que 150mm. Entretanto, o emprego do tamanho é arbitrário uma vez que foram reconhecidos restos orgânicos de foraminíferos variando de 60-800mm.

No esquema informal de classificação dos palinoforaminíferos2, é proposto um agrupamento baseado em morfologia de exemplares fósseis e recentes (morfogrupos), tendo como fator principal o arranjo de suas câmaras. Os principais morfogrupos são representados por câmaras simples, unisseriais, bisseriais, espiralados e compostos (Figura 1).

Os palinoforaminíferos têm sido recuperados de rochas do Permiano ao Recente2, porém não têm sido comumente utilizados para estabelecimento de arcabouços bioestratigráficos.

A potencialidade como indicador paleoambiental é o principal motivo de se estudar os palinoforaminíferos. Por isso, esse grupo de palinomorfo é utilizado nas reconstruções paleoambientais e paleogeográficas4, nas determinações de ciclos sedimentares5 e condições de estagnação de fundo6, e na estimativa de temperaturas das águas marinhas ligadas ao fenômeno de ressurgência7, além de inferências de tendências de resfriamento climático devido a episódios glaciais8.

Figura 1 – Exemplos de morfotipos de palinoforaminíferos: a) espiralado; b) unisserial. Barra da escala igual a 20 m m.

O registro de palinoforaminíferos em seções marinhas cretáceas e cenozóicas das bacias sedimentares brasileiras é relativamente comum. Alguns autores compararam tentativamente uma classificação biológica dos palinoforaminíferos com espécies conhecidas de foraminíferos como Ticinella ex-gr. primula Luterbacher 1963 e Favusella (Hedbergela) washitensis Casey 1926, presentes em rochas albianas da bacia do Espírito Santo9. Esta última espécie também foi identificada em seções cenomanianas-turonianas da bacia Potiguar10.

Uma aplicação preliminar dos palinoforaminíferos na bioestratigrafia foi realizada para o Albiano superior da bacia de Campos, onde alguns dos morfotipos encontrados foram atribuídos às espécies Ticinella cf. primula e Heterohelix moremani 11.

Nas reconstruções paleoambientais fundamentadas em análises palinológicas e de palinofácies de seções aptianas-albianas da bacia de Sergipe, os palinoforaminíferos são entre os palinomorfos marinhos, os mais abundantes. Por isso, puderam ser tratados como um grupo individualizado nas análises estatísticas12. As concentrações e distribuições de palinoforaminíferos nesta seção foram controladas pela batimetria e condição de alcalinidade, sendo as maiores freqüências encontradas em ambiente nerítico raso12.

Nos depósitos do Paleoceno superior da Formação Calumbi, foram registrados os morfotipos unisseriais, bisseriais, espiralados e combinados, sendo baixas suas freqüências (cerca de 1%) nas associações palinológicas em ambiente nerítico profundo/batial superior.

1Pantic, N. & Bajaktarevic, Z. 1988. "Nannoforaminifera" in palynological preparations and semar-slides from Mesozoic and Tertiary deposits in Central and Southeast Europe. Revue de Paléobiologie, Benthos'86, Special volume, 2: 953-959.

2Stancliffe, R. P. W. 1996. Microforamiferal linings. In: Jansonius, J. & McGregor, D. C. (Eds.), Palynology: principles and applications; American Association of Stratigraphic Palynologists Foundation, 1: 373-379.

3Tyson, R. V. 1995. Sedimentary organic matter: organic facies and palynofacies. Chapman & Hall, London, 615 pp.

4Melia, M. B. 1984. The distribution and relationship between palynomorphs in aerosols and deep-sea sediments off the coast of northwest Africa. Marine Geology, 58: 345-371.

5Eshet, Y.; Druckman, Y.; Cousminer, H. L.; Habib, D. & Drugg, W. S. 1988. Reworked palynomorphs and their use in the determination of sedimentary cycles. Geology, 16: 662-665.

6Van Der Zwan, C. J. 1990. Palynostratigraphy and Palynofacies reconstruction of the Upper Jurassic to Lowermost Cretaceous of the Draugen Field, Offshore Mid Norway. Review of Palaeobotany and Palynology, 62: 157-186.

7Powell, A. J.; Dodge, J. D. & Lewis, J. 1990. Late Neogene to Pleistocene palynological facies of the Peruvian continental margin upwelling, Leg 112. Proceedings of the Ocean Drilling Project, Scientific Results, 112: 297-321.

8Phadtare, N. R. & Thakur, B. 1992. Distribution and paleoecologic efficacy of microforaminiferal organic linings from deep sea Quaternary sediments off Vishakhapatnam coast. Indian Journal of Marine Sciences, 21: 246-250.

9Botelho Neto, J. 1996. Porção norte da Plataforma de Regência, Bacia do Espírito Santo: caracterização palinoestratigráfica e evolução paleoambiental. Tese de mestrado não publicada, Universidade Federal do Rio de Janeiro, 163 pp.

10Lana, C. C. 1997. Palinologia e estratigrafia integrada da seção Cenomaniano médio-Turoniano inferior da porção centro leste da Bacia Potiguar, NE do Brasil. Porto Alegre: Tese de mestrado não publicada, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 197 pp.

11Arai, M. & Koutsoukos, E. A. M. 1997. Palynoforaminifera and its stratigraphical application: an example from the Vraconian (Upper Albian) of the Campos Basin, offshore Southeastern Brazil. In: Congresso Brasileiro de Paleontologia, 15, São Pedro, São Paulo, 1997. Sociedade Brasileira de Paleontologia, Boletim de Resumos, p. 155.

12Carvalho, M. A. 2001. Paleoenvironmental reconstruction based on palynological and palynofacies analyses of the Aptian-Albian succession in the Sergipe Basin, northeastern Brazil. Tese de doutorado não publicada, Universität Heidelberg, Geologisch-Paläontologisches Insti-tut. 150 pp., 6 estampas, 4 apêndices.

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