Neste número:

  1. Calcisferas pelágicas

Ano 4

Número 39

Março 2002

 
Fotomicrografia de Carpistomiosphaera alexandrerichteri, ortopitonelóideo do Albiano médio da sub-bacia de Sergipe.

Os fósseis da bacia de Sergipe-Alagoas

Calcisferas pelágicas

Calcisferas pelágicas

Dimas Dias-Brito*

* Universidade Estadual Paulista – UNESP, campus de Rio Claro (e-mail: dimasdb@rc.unesp.br)

Em meio ao espectro faciológico das rochas carbonáticas marinhas finas depositadas no intervalo Jurássico-Cretáceo, chamam a atenção os sedimentos dominados por um conjunto de microfósseis tradicionalmente conhecidos como calcisferas.

O termo calcisfera tem conotação puramente descritiva e é originário da nomeação de esférulas calcárias produzidas, provavelmente, por algas bentônicas do Paleozóico (gênero Calcisphaera Williamson, 1880). Pelo seu status de abrangência, sentido evocativo, largo uso na literatura geológica/paleontológica e por não estar na origem de qualquer denominação supra-genérica proposta, o termo se aplica a diferentes grupos de microesferas calcárias fanerozóicas, bênticas ou pelágicas, acumuladas em ambientes lagunares, neríticos ou oceânicos.

As calcisferas pelágicas, cujo tamanho freqüentemente oscila entre 30 e 100 m m, são assumidas como dinoquistos calcários por vários autores. São em boa parte enquadradas nas subfamílias Obliquipitho-nelloideae, Orthopithonelloideae e Pithonelloideae1, pertencentes à família Calciodinellaceae Deflandre, 1947, emend Bujak & Davies, 1983. Surgiram ao final do Triássico e ocorrem, ainda hoje, em águas oligotróficas da zona fótica.

Entre as calcisferas pelágicas mesozóicas destacam-se aqui os seguintes grupos (Figura 1): a) cadosinidos, b) estomiosferidos e c) pitonelidos. Os dois primeiros, com clímax no Neojurássico-Neocomiano, distribuíram-se em massas d´águas neríticas e oceânicas, sendo encontrados principalmente em mudstones e wackestones. Os últimos, com clímax no neo-Albiano-Co-niaciano, estiveram associados, preferencialmente, a águas neríticas abertas ou neritoceânicas de ecossistemas carbonáticos.

Os pitonelidos são essencialmente encontrados em carbonatos finos. Margas argilosas são destituídas destes microfósseis, refletindo seu controle por um quadro ecológico marcado por águas quentes, salgadas e ricas em carbonato de cálcio. Algumas vezes tais calcisferas formam autênticos pitonelitos ou greditos (chalkstones) a pitonelidos.

Figura 1 – a) Crustocadosina callosa (Knauer), obliquipitonelóideo; b) Colomisphaera cf. carpathica (Borza), ortopitonelóideo (barra da foto = 25 m m; c) Gredito a pitonelidos (Pithonella trejoi, P. ovalis, P. sphaerica e Bonetorcadiella conoidea); esferas maiores com 50 m m. Todos do Albiano superior da bacia de Campos.

Os pitonelidos são excelentes marcadores biogeográficos, sendo ferramentas úteis para o delineamento dos limites do Tétis mesozóico. Sua distribuição global (incluindo Pithonella sphaerica, P. ovalis. P. trejoi, P. perlonga e Bonetocardiella conoidea) para o Aptiano-Maastrichtiano sugere que a massa d’água do Atlântico Sul primitivo constituiu um longo e estreito golfo do domínio megatetiano (Figura 2)2. Neste contexto, os evaporitos aptianos e os carbonatos albianos sul-atlânticos teriam tido origem vinculada a invasões marinhas procedentes do norte. Os carbonatos finos mesocretáceos de mar aberto do Caribe, Golfo do México e do Atlântico Sul têm uma inegável convergência constitucional, refletida pelas análises de microfácies e de estratigrafia química2, 3, 4.

Figura 2 - O Megatétis representado, sobretudo, no cenário neo-Albiano, sustentado pela distribuição de pitonelidos2, 7.

Relatadas desde meados do séc. 19, as calcisferas pelágicas foram interpretadas de diferentes maneiras. O apoio da microscopia eletrônica de varredura a partir da década de 1970 complementou os estudos de microscopia ótica e ambos os métodos são correntemente empregados para a investigação das calcisferas. Ainda há, contudo, alguma polêmica sobre sua natureza.

Na bacia de Sergipe-Alagoas as calcisferas pelágicas foram inicialmente notadas com ocorrência discreta nas rochas micríticas albianas do Membro Taquari da Formação Riachuelo e freqüente em biomicritos cenomaniano-eoturonianos do Membro Aracajú da Formação Cotinguiba5 (posteriormente os exemplares estampados foram reconhecidos como radiolários calcitizados7). Sua abundância em carbonatos cenomaniano-coniacianos foi posteriormente enfatizada6, sendo particularmente representados por Pithonella spp. O estudo das calcisferas com o auxílio do microscópio eletrônico de varredura identificou, em amostras do poço 1-US-1-SE atribuídas ao Turoniano, as espécies Pithonella sphaerica, P. ovalis (?); já no poço 1-CA-1-SE, no intervalo Albiano inferior a Campaniano superior, registrou os taxa P. sphaerica, P. ovalis e Bonetocardiella conoidea, que aparecem discretamente. Nestes estudos foi detectada uma nova espécie de ortopitonelóideo, C. alexandrerichteri, em amostras coletadas em afloramento mesoalbiano próximo a Rosário do Catete7.

Comparando-se a incidência de pitonelidos em carbonatos cretáceos da sub-bacia de Sergipe com a registrada nas bacias de Santos, Campos e Espírito Santo, fica-se com a impressão que em Sergipe as calcisferas pelágicas não apresentam a mesma opulência quantitativa verificada nas demais bacias7. É necessário que haja mais pesquisas neste sítio no tocante a estes organismos, ainda pouco investigados. Novos estudos de fácies carbonáticas de ambientes neríticos e batiais rasos do mesocretáceo sergipano podem vir a revelar novidades importantes para a micropaleontologia deste grupo.

1Keupp, H. 1987. Die kalkigen Dinoflagellatenzysten des Mittelalb bis Untecenoman von Escalles/Boulonnais (N-Frankreich). Facies, 16: 37-88.

2Dias-Brito, D. 2000. Global stratigraphy, palaeobiogeography and palaeoecology of Albian-Maastrichtian pithonellid calcispheres: impact on Tethys configuration. Cretaceous Research, 21: 315-349.

3Dias-Brito, D. 1994. Comparação dos carbonatos pelágicos do Cretáceo médio da Margem Continental brasileira com os do Golfo do México: novas evidências do Tétis Sul-Atlantiano. Simpósio sobre o Cretáceo do Brasil, 3, Rio Claro, São Paulo, 24 a 31 de Julho de 1994, Boletim, pp. 11-18.

4Azevedo, R. L. M. de 2001. O Albiano no Atlântico Sul:estratigrafia, paleoceanografia e relações globais. Tese de doutorado não publicada, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2 vol., xvi + 228 pp.

5Bandeira Jr., A. N. 1978. Sedimentologia e microfácies calcárias das formações Riachuelo e Cotinguiba da Bacia Sergipe/Alagoas. Boletim Técnico da Petrobrás, 21 (1):17-69.

6Berthou P. -Y. & Bengtson, P. 1988. Stratigraphic correlation by microfacies of the Cenomanian of the Sergipe Basin, Brazil. Fossils and Strata, 21: 1-88, estampas 1-48.

7Dias-Brito, D. 1995. Calcisferas e microfácies em rochas carbonáticas pelágicas mesocretáceas. Tese de doutorado não publicada, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre. 2 vol. 688 pp. + Atlas.

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