Neste número

  1. A megafauna pleistocênica

Ano 4

Número 43

Julho 2002

 
Fragmento de úmero de Edentata encontrado em Poço Redondo, Sergipe.

Os fósseis da bacia de Sergipe-Alagoas

A megafauna pleistocênica

A megafauna pleistocênica

Lílian Paglarelli Bergqvist*

* UFRJ - Dept° de Geologia - Instituto de Geociências/CCMN, Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil (e-mail: bergqvist@ufrj.br)

Os mamíferos apareceram pela primeira vez no Período Triássico, um pouco depois dos primeiros dinossauros1. Eles são produto de uma linhagem de vertebrados conhecida como Synapsida, que se separou dos Sauropsida (linhagem que deu origem às tartarugas, lagartos, aves, etc) há aproximadamente 300 milhões de anos, no Carbonífero. No final Triássico (cerca de 210 Ma), os Cynodontia, um grupo avançado de Synapsida, que apresentava um mosaico de características reptilianas e mamaliformes, deram origem aos mamíferos.

Os primeiros fósseis de mamíferos são muito incompletos, sendo os membros da família Morganucodontidae as primeiras formas melhor representadas. Eram pequenos, com menos de 150mm, alimentavam-se de insetos e provavelmente assemelhavam-se a esquilos.

A característica mais típica dos mamíferos, e que dá o nome ao grupo, é a presença de glândulas mamárias. No entanto, como esta feição não é observada no registro fossilífero, definiu-se como mamíferos todos aqueles Synapsida cuja articulação entre o crânio e a mandíbula é feita pelos ossos escamosal e dentário.

Durante aproximadamente 150 milhões de anos, os mamíferos viveram à sombra dos dinossauros, mas com a extinção destes no final do Cretáceo (65 Ma), eles sofreram uma grande irradiação, diversificando-se em um grande número de linhagens, muitas das quais foram extintas no curso da evolução. Com exceção dos ornitorrincos, estas linhagens são abrigadas em dois grandes grupos: os Eutheria (placentários), cujo embrião se desenvolve completamente no interior do útero materno, e os Metatheria (marsupiais), cujo desenvolvimento se completa em uma bolsa externa formada por uma dobra da pele (marsúpio).

Fósseis de mamíferos são bem conhecidos no Brasil, mas somente em algumas épocas do Terciário e Quaternário2: as formas paleocênicas (cerca de 60 Ma) procedem da bacia de Itaboraí (RJ), local onde foi coletado o mais antigo fóssil de tatu3. As formas oligocênicas (cerca de 30 Ma) são encontradas na bacia de Taubaté (SP); fósseis do Mio-Plioceno (entre 10 e 5 Ma) são oriundos das bacias de Pirabas (PA) e Acre (AC), e os fósseis pleistocênicos (entre 1 Ma e 15 mil anos) são encontrados em quase todos os estados do Brasil.

Fósseis pleistocênicos, principalmente de mamíferos, são muito comuns na região Nordeste brasileira e, devido ao seu grande tamanho, são também conhecidos como "megafauna pleistocênica". São mais comumente encontrados em cavernas (principalmente no Estado da Bahia) e tanques, que são depressões naturais em rochas do embasamento cristalino4 (Figura 1). Estas depressões foram preenchidas por sedimentos e restos da megafauna no Pleistoceno, e hoje, quando esvaziadas para tornarem-se reservatórios de água, revelam esta exuberante fauna que viveu na região naquela época. É comum alguns pesquisadores denominarem este depósito de cacimba ou poço, mas a utilização destes termos tem conotação antrópica, referindo-se a escavações geralmente no fundo seco de antigas lagoas ou lagoas temporárias, as quais propiciam a descoberta de fósseis5 (Figura 2).

Figura 1 - Tanque já escavado no município de Taperoá, Paraíba.

Os mamíferos fósseis, principalmente os pleistocênicos, podem ser bons indicadores paleoclimáticos e paleoambientais. A presença de lhamas e ursos no Nordeste brasileiro6 é um indicativo de que o clima era bem mais ameno naquela época. Na região amazônica, a descoberta de megafauna pleistocênica revelou que há alguns milhares de anos aquela região era coberta por savanas. A presença de animais corredores, como os cavalos e macrauquenídeos, sugere a existência de campos abertos, adequado para o desenvolvimento de velocidade na corrida7.

Figura 2 - Cacimba no município de Poço Redondo, Sergipe, na qual foi encontrada uma diversificada paleomastofauna (foto: Cláudio Borba).

Os primeiros mamíferos fósseis de Sergipe (Figura 3) foram descobertos em 1848, no Sítio Novo, a 30 Km de Propriá, e na Lagoa dos Elefantes (Sítio Ilha das Flores), e encontram-se depositados no Museu Nacional8. O registro seguinte só foi feito 140 anos depois8. Fósseis de uma preguiça gigante (Eremotherium laurillardi) e de um mastodonte (Haplomastodon waringi) foram coletados em cacimbas abertas na Lagoa do Roçado, no Município de Monte Alegre. Numa outra cacimba, na Fazenda Charco, no Município de Poço Redondo, foi encontrada uma paleomastofauna mais diversificada, incluindo, além das formas registradas em Monte Alegre, um toxodonte (Toxodon platensis ou Trigodonops lopesi), um camelídeo (Palaeolama major)9 e Catonyx sp., uma outra forma de preguiça gigante terrícola10.

Figura 3 - Defesa de Haplomastodon waringi procedente da Lagoa dos Elefantes, conforme ilustração original.

Poucos ainda são os fósseis de mamíferos pleistocênicos conhecidos do Estado de Sergipe, mas como os demais estados da região Nordeste, o estado é promissor para a descoberta de novos espécimes e assim contribuir para o melhor conhecimento da megafauna pleistocênica brasileira.

1Vaughan, T. A.; Ryan, J. M. & Czaplewiski, N. J. 2000. Mammalogy. Saunders College Publishing, Philadelphia, 4ª edição, 565 pp.

2Bergqvist, L. P.; Abuhid, V. S. & Lessa, G. 2000. Mamíferos. In: Carvalho, I. de S. (ed.), Paleontologia. Interciência, Rio de Janeiro, pp. 595-623.

3Oliveira, E. V. & Bergqvist, L. P. 1998. A new Paleocene armadillo (Mammalia, Dasypodoidea) from the Itaboraí basin, Brazil. Asociación Paleontológica Argentina, Publicação Especial, 5: 35-40.

4Bergqvist, L. P. 1993. Jazimentos pleistocênicos do Estado da Paraíba e seus fósseis. Revista Nordestina de Biologia, 8 (2): 143-158.

5Souza-Cunha, F. L. 1966. Explorações paleontológicas no Pleistoceno do Rio Grande do Norte. Arquivos do Instituto de Antropologia "Câmara Cascudo", 2 (1-2): 73-116.

6Paula-Couto, C. 1979. Tratado de Paleomasto-zoologia. Anais da Academia Brasileira de Ciências, 590 pp., Rio de Janeiro.

7Bergqvist, L. P.; Gomide, M.; Cartelle, C. & Capilla, R. 1997. Faunas locais de mamíferos pleistocênicos de Itapipoca/Ceará, Taperoá/Paraíba e Campina Grande/Paraíba. Estudo comparativo, bioestratinômico e paleoambiental. Revista Universidade de Guarulhos, Geociências, 2 (6): 23-32.

8Souza-Cunha, F. L.; Andrade, A. B.; Zucon, M. H. & Santos, M. M. 1985. Ocorrência de mamífero fóssil pleistocênico, localizado em Monte Alegre, Sergipe, Brasil. In: Congreso Brasileiro de Paleontologia, 8, Departamento Nacional da Produção Mineral, Série Geologia 27 (Paleontologia/Estratigrafia nº2): 29-33.

9Goes, F. A. S.; Vieira, F. S.; Zucon, M. H.; Cartelle, C. & Silva, C. T. 2000. Mamíferos pleistocênicos de Sergipe. In: Simpósio Brasileiro de Paleontologia de Vertebrados, 2, Rio de Janeiro, 2000. Museu Nacional, Boletim de Resumos, p. 27.

10Goes, F. A. S.; Cartelle, C.; Zucon, M. H. & Vieira, F. S. 2001. Ocorrência da preguiça terrícola Catonyx (Xenarthra, Scelidotheriinae) no Pleistoceno final de Sergipe, Brasil. In: Congresso Brasileiro de Paleontologia, 17, 5-9 de Agosto de 2001, Rio Branco, Acre. Sociedade Brasileira de Paleontologia, Boletim de Resumos, p. 174.

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