Neste número

  1. Os icnofósseis

Ano 4

Número 44

Agosto 2002

 
Subphyllochorda, um icnogênero do Campaniano superior da Formação Calumbi, bacia de Sergipe-Alagoas (acervo Phoenix). Os fósseis da bacia de Sergipe-Alagoas

Os icnofósseis

Os icnofósseis

Antonio Carlos Sequeira Fernandes *

* Museu Nacional/UFRJ, Dept° de Geologia e Paleontologia, Rio de Janeiro, Brasil (e-mail: fernande@acd.ufrj.br)

Os icnofósseis, ou traços fósseis, são estruturas biogênicas distintas que refletem funções comportamentais relacionadas mais ou menos diretamente à morfologia dos organismos que as produziram, tais como pegadas, pistas, escavações, e perfurações, incluindo ainda coprólitos, pelotas fecais e outras estruturas, recentes ou fósseis1, 2, 3.

Os icnofósseis revelam vantagens sobre os fósseis corporais, por serem representantes diretos de uma biocenose, já que ocorrem in situ, enquanto que os fósseis corporais compõem mais freqüentemente as tanatocenoses. Além disso, por se tratarem de estruturas físicas, ocorrem em rochas onde a preservação das partes duras dos fósseis corporais não se preservam. Do ponto de vista paleobiológico, os icnofósseis são, na maioria dos casos, a única evidência da existência de um grande número de organismos desprovidos de partes duras. Apesar de fornecerem poucos detalhes da morfologia do organismo produtor, certos icnofósseis são suficientemente evidentes para permitir uma diagnose dele, como ocorre por exemplo com as pistas deixadas por alguns artrópodes. Além disso, os icnofósseis são também a única evidência direta dos modelos de comportamento (etologia) dos organismos do passado em estudos paleoecológicos. Podem também auxiliar na documentação de taxas de sedimentação, servir como indicadores de profundidade, oxigenação e salinidade, permitindo o conhecimento sobre paleoambientes de sedimentação.

Deve-se ressaltar o potencial dos icnofósseis tanto na Sedimentologia, através da caracterização de fácies sedimentares (icnofácies)2, quanto na Estratigrafia, na descrição de sucessões estratigráficas. Apesar da ampla distribuição geocronológica apresentada pela maioria dos icnofósseis, algumas formas são úteis na datação e correlação de camadas sobretudo em correlações locais.

Com base na distribuição estratigráfica e etológica das associações de icnofósseis em distintas condições ambientais e idades, distinguem-se as icnofácies Scoyenia, Termitichnus, Mermia, Psilonichnus, Trypanites, Glossifungites, Skolithos, Cruziana, Zoophycos, Nereites e Teredolites1 (Figura 1).

Figura 1 – Distribuição dos mais característicos icnofósseis marinhos e as icnofácies associadas2.

Na bacia de Sergipe-Alagoas os icnofósseis encontram-se caracterizados como estruturas de bioturbação, as quais refletem o rompimento das características de uma estratificação pela atividade de um organismo, tais como pegadas, pistas e escavações (Figura 2). Ocorrem com freqüência em diversas unidades litoestratigráficas, tendo sido registrados, p. ex., nos sedimentos cretáceos da Formação Calumbi (Grupo Piaçabuçu). Em suas camadas foram identificados os icnogêneros Gyrolithes, Ophiomorpha, Planolites, Thalassinoides e Subphyllochorda4, 5.

Figura 2 – Vista, em seção, de hardground definido por intensa bioturbação em calcilutitos turonianos (Fm. Cotinguiba, bacia de Sergipe-Alagoas).

Gyrolithes, Ophiomorpha e Thalassinoides compreendem as escavações atribuídas às atividades de habitação, ou mesmo de alimentação, de crustáceos decápodes. Apresentam diferenças morfológicas, com Gyrolithes correspondendo a escavações helicoidais mais ou menos verticais, Ophiomorpha às escavações simples ou ramificadas que originam redes verticais, oblíquas ou horizontais, nas quais a superfície exterior é caracterizada por uma parede ornamentada por pelotas ovais ou discóides, e Thalassinoides às escavações com ramificações em forma de Y ou em T, com arranjos horizontais, oblíquos ou verticais (Figura 3).

Figura 3 – Arenito bioturbado exibindo icnofósseis do icnogênero Thalassinoides (Formação Calumbi, Campaniano superior)5.

Ao contrário dos icnogêneros anteriores, Planolites é atribuído às atividades de alimentação de organismos vermiformes sedimentívoros, compreendendo as escavações meandrantes com orientação horizontal a oblíqua em relação à estratificação, raramente ramificadas, e com dimensões e configurações variadas; de seção transversal circular a elíptica, possuem preenchimento de composição diferente da rocha matriz. Por outro lado, Subphyllochorda é atribuído a escavações produzidas por atividades de pastagem de equinóides irregulares com orientação horizontal à estratificação6, as quais apresentam duas zonas laterais dotadas de uma crosta delgada e convexa marcada por ranhuras finas e fracas, e uma zona central rebaixada apresentando lâminas de preenchimento posterior ao deslocamento do seu produtor; a atribuição de escavações a este icnogênero na Formação Calumbi é, entretanto, duvidosa.

Todos esses icnogêneros têm representatividade nas icnofácies Cruziana, com ressalva para algumas variações, a qual compreende ambientes litorâneos que se distribuem desde o ponto localizado abaixo da base da linha de rebentação, mas sujeito à ação de tempestades (conforme ocorre em determinadas ocorrências da Formação Calumbi), às condições de águas mais calmas de costa-afora, situadas na plataforma. Os sedimentos caracterizam-se principalmente por siltes e areias bem selecionados, depositados em um ambiente de energia relativamente baixa a moderada. Nestas camadas a bioturbação apresenta-se muitas vezes de forma intensa, destruindo a estratificação das mesmas.

1Carvalho, I. de S. & Fernandes, A. C. S. 2000. Icnofósseis. In: Carvalho, I. de S. (ed.), Paleontologia. Interciência, Rio de Janeiro, pp. 95-118.

& Fernandes, A. C. S. 2000. Icnofósseis. In: Carvalho, I. de S. (ed.), Paleontologia. Interciência, Rio de Janeiro, pp. 95-118.

2Frey, R. W. & Pemberton, S. G. 1985. Biogenic structures in outcrops and cores. I. Approaches to ichnology. Bulletin of Canadian Petroleum Geology, 33: 72-115.

3Häntzschel, W. 1975. Trace Fossils and Problematica. In: Teichert, C. (ed.), Treatise on Invertebrate Paleontology, Part W, Miscellanea, supplement 1. Geological Society of America, University of Kansas, 269 pp.

4Muniz, G. da C. B.; Brito Neves, B. B. de & Zucon, M. H. 1981. Ichnofósseis da Formação Piaçabuçu (Nordeste do Brasil) e respectivo significado paleoecológico. In: Congresso Latino-Americano de Paleontologia, 2, Abril 1981, Porto Alegre, Anais, pp. 359-371.

5Souza-Lima, W. 2001. Macrofaunas campanianas e ambientes deposicionais da Formação Calumbi, bacia de Sergipe-Alagoas, Brasil. Universidade Federal do Rio de Janeiro, Instituto de Geociências, Programa de Pós-Graduação em Geologia, Rio de Janeiro, Tese de doutorado não publicada, xxxii + 366 pp.

6Smith, A. B. & Crimes, T. P. 1983. Trace fossils formed by heart urchins - a study of Scolicia and related traces. Lethaia, 16: 79-92.

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