Ano 5

Número 59

Novembro 2003

Bacias sedimentares brasileiras

Bacia do Jequitinhonha

 

 

 

 

Bacia do Jequitinhonha

Luciano Seixas Chagas*

*PETROBRAS-UNBA-ATEX-ABIG, Salvador, Bahia, Brasil (e-mail: lucianoseixas@petrobras.com.br)

A bacia do Jequitinhonha está localizada na margem leste da costa brasileira. Ocupa uma área aproximada de 10.000 km2, dos quais apenas 500 km2 estão emersos1 (Figura 1). Situa-se entre as bacias de Almada e Cumuruxatiba ao norte e sul, respectivamente. Compreende uma bacia rift que evoluiu para uma típica de margem passiva (Figura 2). Diferente das bacias limítrofes, o rift amostrado é de idade aptiana. Sedimentos mais antigos das idades berriasiana, valanginiana, hauteriviana e barremiana, comuns nas bacias marítimas vizinhas, ainda são uma hipótese, pois não foram datados com base em ostracodes e palinomorfos. As imagens sísmicas sugerem a presença de um rift mais velho do que o já atravessado por poços ou descrito em afloramentos. Porém, como ele não foi ainda amostrado, a sua idade é indeterminada.

Figura 1 - Arcabouço estrutural da bacia do Jequitinhonha (modificado1).

A arquitetura estratigráfica do rift Aptiano/Eoalbiano mais novo e amplo é semelhante à de uma bacia apenas estirada. Esse padrão pode ser um reflexo de um aporte incomum de calor2, que teve início durante o Barremiano, causado pela domação, cujas rochas vulcânicas só extrudiram, na vizinhança sul da bacia, durante o Paleoceno e o Eoceno. O Complexo de Royal Charlotte (Figura 1)1 é o testemunho desse evento. Após soerguimento térmico delineou-se, durante o Aptiano e o Eoalbiano, o aparecimento de falhas extensionais que, com o arrefecimento posterior, formaram um sistema de rifts encravados numa larga depressão (Figura 2). Esses foram preenchidos, principalmente, por terrígenos areno-argilosos em contexto flúvio-lacustre, intercalados no topo com evaporitos, típicos de uma bacia sempre rasa que acumulou espessa camada de sedimentos simultaneamente à criação dos espaços baciais, sempre colmatados por uma coluna sedimentar cuja espessura total é superior a 3,5 km. Os sedimentos dos segmentos de rifts mais antigos, porventura existentes, foram erodidos durante o intumescimento térmico, restando apenas relíquias nos maiores depocentros, de acordo com as imagens sísmicas. Assim, dominam na bacia os terrígenos associados a evaporitos, durante a fase tardia rift-térmica. A litoestratigrafia comum dessa fase são conglomerados, arenitos e pelitos do Grupo Nativo, Formação Mariricu, Membro Mucuri e evaporitos do Membro Itaúnas3 (Figura 3).

Figura 2 - Seção geológica esquemática da bacia do Jequitinhonha (localização na Figura 1).

Após o rifteamento e com a ingressão marinha inicial, conseqüente do estiramento crustal, implantou-se na bacia a sedimentação de margem passiva. Passaram a dominar as fácies terrígena e carbonática em ambiente parálico e nerítico de contexto semi-restrito de idades albiana e cenomaniana, além de folhelhos anóxicos e margas de idades turoniana e coniaciana em bacia nerítica a abissal, agora em contexto de mar aberto e estreito, todos do Grupo Barra Nova, formações São Mateus e Regência3 (Figura 3). Nessa fase, a bacia experimentou resfriamento térmico e começou a bascular suavemente para leste, deflagrando os processos de movimentações adiastróficas dos evaporitos para as porções mais elevadas, formando pequenas almofadas. Além disso, os sedimentos da seção clástica e carbonática, sobrepostos aos evaporitos, aportaram para a bacia provenientes dos altos adjacentes do embasamento (margem oeste), ou aí se desenvolveram em plataforma carbonática estreita (5 a 10 km), mais espessos nessas porções proximais. Também exerceram sobrecarga sobre os sais fazendo-os fluir em direção aos altos estruturais da fase rift-termal já existentes, acompanhando o mergulho regional. Entretanto, as movimentações evaporíticas ainda eram incipientes, bem como as falhas delas conseqüentes. Essas, ao iniciarem-se, formavam calhas nas depressões dos blocos baixos com tamanhos proporcionais ao volume dos evaporitos evadidos. Tais calhas, captoras de terrígenos, situavam-se paralelas ao litoral. Eram compridas no sentido norte-sul e tinham largura ainda inexpressivas.

Os eventos de deposição de sedimentos característicos de ambientes anóxicos, possivelmente mais espessos nos depocentros abissais, diminuem de isópaca na direção do antigo litoral. São expressivos durante as idades turoniana e coniaciana, sendo, localmente, obliterados por erosões conseqüentes de rebaixamentos eustáticos de maior ordem.

Durante o Senoniano passa a dominar uma sedimentação pelítica em ambiente abissal da Formação Urucutuca, Grupo Espírito Santo3, em contexto de nível de mar alto (Figura 3). Rebaixamentos eustáticos pontuam localmente a bacia com a chegada de diamictitos, turbiditos de carbonatos e arenitos nas pequenas calhas e vales incisos. A tectônica adiastrófica repete as mesmas feições da fase anterior, acentuando-as. Falhas extensivas de alívio nos sedimentos sobrepostos às almofadas de sais ficam mais evidentes. As isópacas do santoniano, campaniano e maastrichtiano são menores próximas ao litoral, aumentando na direção do depocentro, entre almofadas evaporíticas. Estas já estão estacionadas junto às feições sísmicas (seaward deep reflection), indicativas do limite entre as litosferas continental e oceânica.

Durante o Terciário, a exemplo da maioria das bacias marítimas, a bacia sofre rebaixamento eustático de primeira grandeza. Durante o Paleoceno, em ambiente abissal a batial, domina a sedimentação pelítica da Formação Urucutuca. As calhas adiastróficas continuam a capturar sedimentos da borda oeste e já estão mais proeminentes, pois os evaporitos agora já erigem domos de razoável expressão. As falhas de alívio são destacadas e já atingem o fundo do mar imprimindo zonas de fraqueza nos sedimentos arqueados. Aí a erosão se instala criando novas calhas de direção ora leste-oeste, na porção sul da bacia, ora noroeste-sudeste, que escavam os domos de sal e permitem o trânsito dos terrígenos como debris areno-carbonáticos e turbiditos arenosos bacia adentro, onde são capturados pelas calhas antigas quase ortogonais às primeiras, de direção nor-noroeste/su-sudeste e paralelas aos diápiros de sais de mesma direção.

Figura 3 - Carta estratigráfica simplificada da bacia do Jequitinhonha (modificada3).

 

 No final do Paleoceno e no Eoceno a bacia torna-se mais rasa e nela implanta-se uma plataforma mista, em ambiente nerítico. Nesta época, extrudem os vulcões da Formação Abrolhos1 na porção sul da bacia, findando uma fase pulsante intumescimento-arrefecimento térmico até então dominante. Nesta porção sul, mais inchada pelo aporte térmico, domina uma sedimentação areno-carbonática das formações Rio Doce, Abrolhos e Caravelas3 (Figura 3). Ao norte, a plataforma menos aquecida é mais estreita. Nela as citadas formações têm menor expressão. Nos depocentros são acomodados os pelitos da Formação Urucutuca e, nas calhas, turbiditos arenosos mais próximos ou distantes do litoral, a depender da largura da plataforma. O aporte terrígeno-arenoso é mais comum durante o Eoeoceno. No Oligoceno as condições agora estabelecidas são mantidas. A tectônica adiastrófica é a mesma. No limite das idades Rupeliano-Chattiano um evento transgressivo de caráter global imprime a sua presença, cobrindo toda a bacia com uma lama carbonática-margosa. Localmente, o registro está omitido, pois os carbonatos foram cortados por canais areno-argilosos de direção oeste-leste, provenientes do litoral, cujos sedimentos são retrabalhados nas calhas adjacentes e alinhadas aos diápiros, que cada vez mais se acumulam nos limites crustais, aí estacionando.

No Mioceno ocorre o proeminente e último arrefecimento térmico, conseqüente do afastamento da dorsal erigida durante o Turoniano e deslocada bacia adentro pela criação de novas faixas magnéticas. As calhas bacinais, paralelas à costa, experimentam extensão na porção oeste e compressão bacia adentro (Figura 1). Os evaporitos, além de acentuarem a domação a ponto de eclodirem nos fundos oceânicos modificando a sua batimetria, formam dobras recumbentes com vergência para oeste. Algumas vezes têm suas porções superiores dissolvidas, quando em contato com o oceano. Em outras, são isolados pelos sedimentos que os encaixam. Formam-se diversas cadeias montanhosas salíferas paralelas à costa e com direção nor-noroeste/su-sudeste, represando os sedimentos nas suas calhas a montante, ou a jusante, até o limite crustal, quando os sedimentos conseguem romper os domos proximais. Além disso, as falhas de alívio mais acentuadas cortam os estratos sobrepostos ao sal, criando depressões no fundo bacinal atual. Os sedimentos entre domos experimentam empilhamento agradacional. A calha mais próxima à costa destacou-se das demais, por ter sido delineada onde os esforços extensionais foram máximos (Figura 1 - Fossa de Jequitinhonha - e Figura 2). Nela implantou-se um canyon miocênico, paralelo ao litoral, preenchido, principalmente, por sedimentos com baixa maturidade textural e mineralógica e com granulação fina. Outras calhas menores, paralelas à primeira e adjacentes aos domos de evaporitos, na direção do depocentro, têm áreas tanto mais reduzidas quão mais próximas estão do limite crustal.

Assim, a litoestratigrafia após o Eoceno é composta pelas formações Rio Doce, Caravelas e Urucutuca3, depositadas em ambientes batial a nerítico. Compreendem o sistema terrígeno, plataforma carbonática, talude e bacia, respectivamente, todos cortados, no depocentro, por evaporitos albianos que ascenderam, chegando a perfurar e elevar o fundo bacial.

No Plioceno, ocorrem os sedimentos do Grupo Barreiras e, no Quaternário, os sedimentos de praia e aluviões.

  1. Nascimento, M. M. 1999. Evolução Tectono-Sedimentar da Seção Marinha da Bacia de Jequitinhonha e Perspectivas Petrolíferas. PETROBRAS/E&P/GEREX, Rio de Janeiro. Relatório interno não publicado, 30 pp.

  2. Karner, G. D.; Rodarte, J. B. M. & Coutinho, L. F. C. 2003. Tectonics of the Jequitinhonha Basin, Brazil: a Quantitativa Perspective. PETROBRAS/CENPES, Rio de Janeiro, Relatório interno não publicado, 73 pp.

  3. Santos, C. F.; Gontijo, R. C. & Feijó, F. J. 1995. Bacias de Cumuruxatiba e Jequitinhonha. Boletim de Geociências da Petrobrás, 8 (1):185-190 [para o ano de 1994].

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