Ano 5

Número 60

Dezembro 2003

Bacias sedimentares brasileiras

Bacia de Cumuruxatiba

 

 

 

Bacia de Cumuruxatiba

Norberto Rodovalho*, Rogério Cardoso Gontijo#, Paulo da Silva Milhomem$, Carlos César Uchôa de Lima+ & Cynthia Lara de Castro Manso

*PETROBRAS-UNBA-ATEX-ABIG, Salvador, Bahia, Brasil (e-mail: norba@petrobras.com.br)

#PETROBRAS-UNEXP-ATEX-C-ES-PN, Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil (e-mail: rgontijo@petrobras.com.br)

$PETROBRAS-UNBA-ATEX-LG, Salvador, Bahia, Brasil (e-mail: milhomem@petrobras.com.br)

+Universidade Estadual de Feira de Santana, Feira de Santana, Bahia, Brasil (e-mail: uchoa@uefs.br)

♦Fundação Paleontológica Phoenix, Aracaju, Sergipe, Brasil (e-mail: cynthia@phoenix.org.br)

 

A bacia de Cumuruxatiba localiza-se no nordeste brasileiro, no extremo sul do Estado da Bahia, entre as cidades de Caravelas e Porto Seguro. Está circundada pelos bancos vulcânicos de Royal Charlotte, a norte, Abrolhos, a sul e Sulphur Minerva, a leste (Figura 1).

A bacia contém rochas sedimentares do Eocretáceo ao Quaternário e vulcânicas do Terciário. Em sua porção emersa, com área de aproximadamente 7.000 km2, encontram-se somente sedimentos terciários sobre o embasamento cristalino. A área submersa, até a cota batimétrica de 2.500 m, possui em torno de 14.000 km2.

O empilhamento das unidades sobre o embasamento, da base para o topo, obedece ao seguinte ordenamento: Formação Monte Pascoal, Formação Porto Seguro, Formação Cricaré, Formação Mariricu (membros Mucuri e Itaúnas), Formação São Mateus, Formação Regência, Formação Urucutuca, Formação Abrolhos, Formação Rio Doce e Grupo Barreiras (Figura 2).

 
Figura 1 - Mapa de localização da bacia de Cumuruxatiba, no sul do Estado da Bahia.  

Em Cumuruxatiba, o substrato pertence a dois domínios geotectônicos diferentes: a Faixa de Dobramentos Araçuaí e o Cráton do São Francisco (Figura 3). O embasamento imprime forte condicionamento na compartimentação da bacia e são reconhecidas três fases tectono-sedimentares principais: Rift, Transicional e Marinha de Margem Passiva (Figura 2).

Na fase rift desenvolveram-se as falhas de gravidade, de direção N20o-30oE, os lineamentos transversais, de direção N35o-45oW (Figura 3) e a sedimentação das formações Monte Pascoal, Porto Seguro e Cricaré. A Formação Monte Pascoal contém essencialmente arcóseo médio a conglomerático, depositado em um sistema de fan-deltas, durante o Eorio da Serra (Eoberriasiano?). A Formação Porto Seguro, de idade Eo- a Neorio da Serra (Eoberriasiano? a Neovalanginiano?), caracteriza-se por folhelhos lacustres cinza-escuros a pretos, com níveis esverdeados e acastanhados. A Formação Cricaré é composta dominantemente por arenitos médios a grossos e conglomerados arcoseanos, intercalados por camadas de folhelhos cinzentos e calcíferos, margas e calcilutitos, sedimentados em ambiente flúvio-lacustre, durante o Neorio da Serra ao Jiquiá (Neovalanginiano? até o Eoaptiano?; Figura 2).

Figura 2 - Carta estratigráfica da bacia de Cumuruxatiba (modificada1).

 

Com a subsidência térmica, depositou-se a Formação Mariricu, que inclui o Membro Mucuri, constituído por clásticos flúvio-lacustres, finos a grossos, de idade Eo- a Neoalagoas (Eo- a Neoaptiano?), e o Membro Itaúnas, caracterizado por evaporitos, representando um ambiente marinho de circulação restrita, que teria se instalado na bacia ainda no Neoalagoas (Neoaptiano? a Eoalbiano?). Essa unidade exibe espessas camadas de anidrita, nas áreas proximais, e halita, nas distais (Figura 2 e Figura 4).

No início da fase marinha, instalou-se uma plataforma rasa sobre os evaporitos. O ambiente nerítico que se estabelece a partir do Albiano está representado pelos sedimentos clásticos grossos, proximais, da Formação São Mateus, e pelos carbonatos oolíticos/oncolíticos a pelíticos da Formação Regência.

 

Figura 3 - Arcabouço estrutural regional da bacia de Cumuruxatiba.

 

Com a progressiva subsidência térmica e o influxo sedimentar siliciclástico, ocorreram deformação e movimentação do sal, resultando na formação de falhas lístricas e roll-overs. Nesse cenário, proporcionado pela halocinese, iniciou-se a sedimentação da Formação Urucutuca, composta predominantemente por pelitos. Esta unidade retrata uma efetiva retrogradação da linha de costa, que teria se iniciado no Cenomaniano e se estendido até o final do Paleoceno. Depósitos arenosos gerados por fluxos gravitacionais são reconhecidos, principalmente, em seções do Neosantoniano ao Eomaastrichtiano e do Eopaleoceno ao Eoeoceno.

O Neopaleoceno e o Eoeoceno foram marcados por intensos tectonismo e vulcanismo, responsáveis pela reativação de falhas normais como reversas, pela geração de falhas de empurrão e pela criação de um grande baixo na parte central da bacia. As rochas vulcânicas desse período (diabásios, basaltos e hialoclastitos) pertencem à Formação Abrolhos.

 

 

Figura 4 - Seções evolutivas esquemáticas W-E da bacia de Cumuruxatiba (localização na Figura 3).

 

A sedimentação regressiva que se implantou a partir do Eo/Mesoeoceno, devido à gradual restrição ao influxo siliciclástico, resultou em uma espessa plataforma cuja sobrecarga contribuiu para o escorregamento dos sedimentos sobrepostos ao sal, em direção ao baixo central. A partir do Oligoceno, esta plataforma tornou-se francamente carbonática (Formação Caravelas). Variações eustáticas proporcionaram incursões clásticas episódicas no ambiente plataformal, representadas pela Formação Rio Doce (Figura 2 e Figura 4).

 

A bioestratigrafia do Eocretáceo da bacia de Cumuruxatiba baseia-se em ostracodes não marinhos, cuja essência é a distribuição estratigráfica dos ostracodes recuperados na bacia do Recôncavo, complementada pelas associações que, na bacia de Sergipe-Alagoas, definem o Neojiquiá (Eoaptiano?) e o Alagoas (Eoaptiano? a Neoalbiano?) 2, 3, 4.

 

Na bacia de Cumuruxatiba, o registro bioestratigráfico da seção rift é incompleto, tendo sido reconhecidas biozonas dos andares Rio da Serra (inferior, médio e superior), Aratu (médio e superior), Jiquiá (superior) e Alagoas. Ao lado de prováveis hiatos associados à evolução tectono-sedimentar da bacia, pode ter contribuído para as ausências de registro a elevada percentagem de sedimentos arenosos, notadamente nas formações Cricaré e Mariricu (Membro Mucuri), traduzindo a prevalência de sistemas deposicionais pouco favoráveis ao desenvolvimento e preservação da microfauna de ostracodes, em grande parte do Eocretáceo. Da mesma forma, a amostragem da seção rift é pequena e restrita a águas rasas. Dos quarenta e três poços perfurados na bacia, apenas sete amostraram seções de idade pré-Alagoas (Eoberriasiano? a Eoaptiano?).

Em seções marinhas, os estudos bioestratigráficos baseiam-se em foraminíferos, nanofósseis e palinomorfos, constituindo uma parte essencial da rotina exploratória. A palinologia tem contribuído também para a análise de depósitos não marinhos e transicionais, particularmente estratos de idade Alagoas (Eoaptiano? a Neoalbiano?).

Na porção emersa da bacia de Cumuruxatiba são conhecidos apenas os sedimentos siliciclásticos do Grupo Barreiras. Esta unidade representa a mais antiga unidade litoestratiráfica citada no Brasil, remontando à carta de Pero Vaz de Caminha ao rei de Portugal, em 1500. O Grupo Barreiras possui uma extensão praticamente contínua ao longo da costa brasileira, desde o Estado do Rio de Janeiro, até o Estado do Amapá5, sendo constituído por depósitos sedimentares de origem predominantemente continental6, 7, embora sedimentos de origem marinha, incluídos neste grupo, tenham sido encontrados no litoral do Pará8, 9, 10. Por correlação, a idade desses sedimentos varia do Mioceno ao Pleistoceno6, 7, 9, 11, 12.

Figura 5 - Conglomerados resultantes de fluxos de detritos no Grupo Barreiras, praia de Riacho Grande, Bahia. Na parte superior ocorre uma maior concentração de clastos, dentre os quais, fragmentos de equinóides. Na parte inferior, há o predomínio da matriz lamosa.

Entre as cidades de Porto Seguro e Prado, encontram-se dezenas de quilômetros de exposição do Grupo Barreiras, sob a forma de falésias. Entre suas várias litofácies, chama atenção aquela formada por conglomerados, encontrada ao sul da Ponta de Corumbau, na praia de Riacho Grande (ou Tauá, Figura 5)13. Os conglomerados são, em geral, suportados por matriz areno-lamosa. Os clastos variam de pequenos seixos a calhaus arredondados e freqüentemente disformes, sendo constituídos principalmente por calcarenitos e, secundariamente, por carapaças de equinodermas clipeasteróides, características do Terciário. Embora contenha fósseis marinhos, esta fácies foi formada em ambiente continental. O fato desse conglomerado possuir fragmentos calcários revela que, pelo menos naquelas imediações, os sedimentos do Grupo Barreiras não derivaram diretamente do embasamento, o que diferencia essa litofácies das demais encontradas ao longo do litoral sul da Bahia. Poços perfurados em Corumbau atingiram um calcário a cerca de 60m de profundidade, evidenciando a direta sobreposição a um calcário de idade provavelmente terciária, de origem marinha. É possível que essas camadas sejam correlacionáveis àquelas de idade miocênica encontradas no litoral do Pará. A preservação dos equinodermas ocorreu pelo fato dos mesmos possuírem uma estrutura calcária rígida, tendo sido transportados e depositados por fluxos de detritos verdadeiros, em um período onde o nível do mar estava bastante recuado. Nesses fluxos, as frações cascalhosas são transportadas em suspensão numa matriz argilosa, o que facilita a preservação das carapaças, conchas e esqueletos de animais marinhos.

  1. Santos, C. F.; Gontijo, R. C.; Araújo, M. B. & Feijó, F. J. 1995. Bacias de Cumuruxatiba e Jequitinhonha. Boletim de Geociências da Petrobras, 8 (1): 185-190 [para o ano de 1994].

  2. Schaller, H. 1970. Revisão estratigráfica da Bacia de Sergipe/Alagoas. Boletim Técnico da Petrobrás, 12 (1) [para o ano de 1969]: 21-86.

  3. Viana, C. F; Gama Jr., E. G.; Simões, I. A.; Moura, J. A.; Fonseca, J. R. & Alves, R. J. 1971. Revisão estratigráfica da Bacia do Recôncavo/Tucano. Boletim Técnico da Petrobrás, 14 (3/4): 157-192.

  4. Brito, H. S.; Viana, C. F. & Praça, U. M. 1984. Atlas dos ostracodes não marinhos (Neojurássico/Eocretáceo) do Brasil. PETROBRAS/CENPES/DIVEX/SEBIPE, Rio de Janeiro, 2 vols.

  5. Suguio, K. & Nogueira, A. C. R. 1999. Revisão crítica dos conhecimentos geológicos sobre a Formação (ou Grupo?) Barreiras do Neógeno e o seu possível significado como testemunho de alguns eventos geológicos mundiais. Geociências, 18 (2): 439-460.

  6. Mabesoone, J. M., Campos e Silva, A. & Beurlen, K. 1972. Estratigrafia e origem do Grupo Barreiras em Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte. Revista Brasileira Geociências, 2: 173-188.

  7. Bigarella, J. J. 1975. The Barreiras Group in Northeastern Brazil. Anais da Acad. Bras. Ciências (Suplemento), 47:365-393.

  8. Arai, M; Uesugui, N; Rossetti, D. de F. & Góes, A. M. 1988. Considerações sobre a idade do Grupo Barreiras no Nordeste do Estado do Pará. In: Congresso Brasileiro de Geologia, 35, Belém, Pará. Sociedade Brasileira de Geologia, Anais, 2: 738-752.

  9. Arai, M. 1997. Dinoflagelados (Dinophyceae) miocênicos do Grupo Barreiras no nordeste do Estado do Pará (Brasil). Revista da Universidade de Guarulhos, Geociências, 2 (no especial): 98-106.

  10. Leite, F. P. R.; Oliveira, M. E. B.; Arai, M. & Truckenbrodt, W. 1997. Palinoestratigrafia da Formação Pirabas e do Grupo Barreiras, Mioceno do nordeste do Estado do Pará, Brasil. Revista da Universidade de Guarulhos, Geociências, 2 (no especial): 141-147.

  11. Salim, J.; Souza, C. J.; Muniz, G. C. B. & Lima, M. R. 1975. Novos subsídios para a elucidação do episódio "Barreiras" no Rio Grande do Norte. In: Simpósio de Geologia do Nordeste, 7, Fortaleza, Ceará. Sociedade Brasileira de Geologia, Núcleo Nordeste, Atas, 149-158.

  12. Suguio, K; Bidegain, J. C. & Morner, N. A. 1986. Dados preliminares sobre as idades paleomagnéticas do Grupo Barreiras e da Formação São Paulo. Revista Brasileira de Geociências, 16 (2): 171-175.

  13. Lima, C. C. U. de 2002. Caracterização sedimentoló-gica e aspectos neotectônicos do Grupo Barreiras no litoral sul do Estado da Bahia. Universidade Federal da Bahia, Instituto de Geociências, Salvador, Bahia, Tese de Doutorado não publicada, 141 pp.

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