A tectônica de placas

Por Wagner Souza-Lima

Alguma vez, olhando um mapa mundi, você observou como o contorno entre as costas da América do Sul e África parecem complementares? Já em meados do séc. 19, o geógrafo Antonio Snider-Pellegrini, observando esta similaridade, sugeriu um possível encaixe entre as costas da margem atlântica da América do Sul e da África, de modo que em alguma época elas teriam estado juntas. Em 1885, o geólogo austríaco Eduard Suess identificou que uma flora fóssil composta por samambaias arborescentes do gênero Glossopteris ocorria na América do Sul, África e India. Com isso, ele sugeriu que estes três continentes estiveram unidos por pontes de terra, formando um grande continente ao qual denominou Gondwana.

Reconstrução apresentada pelo geógrafo Antonio Snider-Pelegrini em 1858 onde ele sugeriu que os continentes da Terra teriam estado unidos em algum tempo passado. Esta hipótese foi levantada principalmente devido ao encaixe quase perfeito entre a América do Sul e África (Snider-Pelegrini, 1858).

Contudo passaram-se mais de 50 anos até que no início do séc. 20 novos questionamentos começassem a ser feitos. Um dos mais importantes pioneiros nessa área foi o geofísico alemão Alfred Wegener (1880-1930). Além de questionar o encaixe quase perfeito de algumas das grandes massas continentais da Terra, comparando os tipos de rochas, estruturas geológicas e outros grupos fósseis de ambos os lados do Atlântico, ele encontrou muitas similaridades que evidenciavam ainda melhor esse “encaixe”. Sua teoria acerca da DERIVA CONTINENTAL foi apresentada em 1912, defendendo que os continentes já teriam sido parte de uma única enorme massa continental que depois se rompeu e se separou. A este supercontinente, Wegener denominou “Urkontinent”, significando “o continente primaz” e, posteriormente “Pangäa”, do grego “Pangaia”, a terra-mãe, e que hoje denominamos de PANGEA.  De início, esta teoria foi recebida com muito ceticismo pela maior parte da comunidade científica, principalmente pelo fato de que não se imaginava quais mecanismos poderiam permitir este movimento. Porém, pouco a pouco a evolução do conhecimento científico foi mostrando novas evidências que reforçavam a deriva dos continentes, bem como facilitavam a compreensão dos mecanismos que propiciavam esta separação.

Em 1929, o geólogo inglês Arthur Holmes (1890-1965) propôs que no manto, a existência de correntes de convecção que dissipavam o calor radioativo do interior da Terra seria responsável pela movimentação da crosta. O princípio é o mesmo que se observa ao se colocar água para aquecer numa panela: a água aquecida, menos densa, sobe, ao passo que a água mais fria da superfície, mais densa, desce.

Representação esquemáticas das correntes de convecção atuantes no manto da Terra. A ascensão das correntes carrega material fundido para cima, o qual gera nova crosta oceânica nas cadeias mesoceânicas, onde se solidifica. O ramo descendente destas correntes, por sua vez, pode favorecer o arrasto lateral das placas, causando seu afastamento da área de expansão e, adicionalmente, a reciclagem destas placas oceânicas nas fossas, em zonas denominadas de subducção. Fonte ilustração: Wagner Souza-Lima, 2020 (CC BY-NC 4.0).

A LITOSFERA é dividida em placas, algumas maiores, outras nem tanto, chamadas de placas tectônicas. Como estas placas de certo modo “deslizam” sobre a porção mais plástica do manto, a ASTENOSFERA, a disposição delas muda com o tempo devido às correntes de convecção. A ascensão das correntes gera nova crosta oceânica, pois empurra rocha fundida crosta acima, como se observa atualmente nas cadeias montanhosas submarinas, a exemplo da “Cadeia oceânica meso-atlântica” (Mid-Atlantic Oceanic Ridge), onde se solidifica. O ramo descendente destas correntes, por sua vez, pode favorecer o arrasto lateral das placas, causando seu afastamento da área de expansão e, adicionalmente, a reciclagem das placas oceânicas. Estas, por serem mais densas, tendem a se deslocar para baixo das placas continentais, em um movimento denominado subducção – um processo que ocorre nas fossas oceânicas – extensas, profundas e relativamente estreitas depressões no fundo dos oceanos.

Assim, ao longo de milhões de anos os continentes vão mudando de posição, afastando-se um dos outros e também colidindo entre si, mudando a geografia do planeta e alterando os ecossistemas e ambientes deposicionais. Clicando no botão abaixo você poderá ver uma interessante animação que mostra uma reconstituição da configuração dos continentes nos últimos 1,5 bilhão de anos, um verdadeiro balé geológico!

Nos processos de colisão são geradas as cadeias de montanhas, como os Andes e os Himalaia, e a ruptura de uma placa e o seu afastamento pode gerar novas bacias sedimentares e um novo oceano, por exemplo. Essas colisões explicam também porque alguns fósseis de organismos que viveram no fundo dos oceanos são hoje encontrados no topo das montanhas. Assim como algumas regiões são soerguidas, outras podem ser rebaixadas e, desse modo, desertos viram mares e mares podem virar desertos. As regiões soerguidas estarão sujeitas a erosão e então irão gerar partículas que darão origem às rochas sedimentares. E a história recomeça mais uma vez, num imenso ciclo.

Ao longo do séc. 20, com a ampliação do uso de equipamentos sísmicos, os cientistas observaram que os grandes tremores de terra tendem a concentrar-se em determinadas áreas do planeta, coincidentes com as cadeias meso-oceânicas e com as fossas oceânicas – exatamente as feições que definem os limites entre as placas tectônicas.

Distribuição dos terremotos ocorridos entre os anos de 1963 e 1998. Nela pode-se observar que os tremores concentram-se em áreas do planeta coincidentes com as cadeias meso-oceânicas e com as fossas oceânicas – esta distribuição define os limites entre as placas tectônicas. (Imagem obtida em https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Quake_epicenters_1963-98.png; Nasa)